A vida que existe por trás daquilo que mostramos

Vivemos em uma época em que dar conta de tudo parece ter se transformado em uma medida de valor pessoal. A agenda cheia, o trabalho entregue, a casa organizada, os filhos cuidados, os compromissos cumpridos e o sorriso no rosto passam a construir a imagem de alguém que aparentemente está bem. Mas existe uma pergunta silenciosa que quase nunca fazemos: como estamos enquanto fazemos tudo isso? Porque funcionar não é necessariamente viver, e produtividade não é sinônimo de saúde emocional.

Na busca por reconhecimento, muitas vezes começamos a construir uma versão de nós mesmos que seja admirada, aprovada e aceita. Vestimos uma aparência de força, competência e felicidade, mesmo quando por dentro estamos cansados. Aos poucos, essa imagem pode se transformar em uma máscara tão bem construída que até nós mesmos esquecemos quem somos por trás dela. A exigência de parecer bem pode ser ainda mais pesada do que a própria dificuldade de estar bem.

Fonte: https://www.em.com.br/app/noticia/saude-e-bem-viver/2023/06/19/interna_bem_viver,1509290/exaustao-digital-o-perigo-oculto-do-uso-excessivo-de-aparelhos-eletronicos.shtml

 

Existe também uma cobrança pela entrega constante. É preciso estar disponível, produzir mais, cuidar de todos, corresponder às expectativas, manter o controle e não decepcionar ninguém. E quando o corpo pede pausa ou a mente simplesmente não consegue acompanhar, surge a culpa: “Eu deveria estar melhor”, “Tenho tantos motivos para agradecer”, “Tem gente passando por coisas muito piores”. Como se reconhecer a própria dor fosse ingratidão. Mas estar cansado não apaga as coisas boas da vida, e admitir que não está bem não diminui a sua força.

A comparação torna esse processo ainda mais cruel. Olhamos para a vida editada dos outros e usamos aquilo como régua para medir a nossa própria existência. Comparamos conquistas, corpos, relacionamentos, famílias, carreiras e até a forma como cada um parece lidar com os problemas. Esquecemos que ninguém publica todas as noites mal dormidas, os medos, as inseguranças e as batalhas internas. Comparar o nosso bastidor com o palco de alguém é uma das formas mais silenciosas de injustiça contra nós mesmos.

Talvez seja necessário mudar a pergunta. Em vez de perguntar apenas “O que ainda falta?”, começar a perceber o que já foi construído. Olhar para a caminhada, reconhecer pequenas conquistas, valorizar as pessoas que estão por perto e perceber aquilo que, no meio da pressa, deixamos de enxergar. Existe muito positivo acontecendo enquanto estamos ocupados demais tentando alcançar o próximo objetivo. Às vezes, a vida não está pedindo mais desempenho; está pedindo presença.

Porque, no fim, dar conta de tudo não significa estar bem. Estar bem também é conseguir reconhecer limites, permitir-se descansar, abandonar algumas máscaras e compreender que não precisamos provar o nosso valor o tempo inteiro. Há uma beleza enorme em continuar caminhando sem precisar aparentar que o caminho é fácil. Talvez cuidar de si seja justamente isso: parar de tentar parecer inteiro o tempo todo e começar a ser verdadeiro com aquilo que existe dentro de nós.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br

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