Quando a internet vira ferramenta de controle, perseguição e humilhação contra as mulheres
A violência também ganhou senha.
Tem localização compartilhada.
Tem perfil falso.
Tem print.
Tem ameaça por mensagem.
Tem exposição de conversa privada.
Tem vídeo íntimo divulgado sem consentimento.
Tem montagem feita por inteligência artificial.
Tem centenas de comentários atacando uma mulher até que ela tenha medo de abrir as próprias redes.
A internet não criou a violência contra as mulheres.
Mas criou novas ferramentas para praticá-la — e uma característica especialmente cruel: aquilo que antes poderia acontecer entre quatro paredes agora pode alcançar milhares ou milhões de pessoas em poucos minutos.
“Era só uma mensagem”
Não necessariamente.
Uma mensagem pode ser ameaça.
Dez mensagens por hora podem ser perseguição.
Um ex-companheiro que cria perfis diferentes para acompanhar a mulher depois do término pode estar praticando stalking.
A exigência de localização em tempo real pode ser uma forma de controle.
A invasão de uma conta pode ser violência patrimonial ou uma ferramenta para outras violências.
E divulgar uma fotografia ou vídeo íntimo sem consentimento não deixa de ser crime porque foi originalmente enviado voluntariamente.
Consentir em enviar uma imagem para alguém não significa consentir com sua divulgação.
A legislação brasileira já reconhece diversas dessas situações.
A lei chegou à tela
A Lei Maria da Penha reconhece, entre outras formas, violência psicológica envolvendo vigilância, perseguição, violação da intimidade, chantagem, humilhação e controle.
O Código Penal também passou a considerar crime a perseguição reiterada — inclusive por meios digitais — quando alguém invade ou perturba a liberdade ou privacidade da vítima. É o chamado stalking, previsto no artigo 147-A.
E existe uma regra muito importante para quem enfrenta exposição íntima: o artigo 218-C do Código Penal criminaliza divulgar, transmitir, publicar ou disponibilizar, sem consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia.
A legislação também avançou diante de uma realidade nova: em 2025, passou a existir aumento de pena para violência psicológica praticada mediante inteligência artificial ou outro recurso tecnológico capaz de alterar imagem ou som da vítima. (CJPol)
Ou seja: deepfake sexual, montagem humilhante e manipulação digital não são brincadeira.
O caso Klara Castanho e uma pergunta incômoda
Em 2022, o caso da atriz Klara Castanho mostrou de maneira dolorosa como a exposição da intimidade de uma mulher pode produzir uma segunda violência.
Klara havia sido vítima de estupro, engravidou e decidiu entregar a criança para adoção dentro dos procedimentos legais. Informações extremamente pessoais sobre sua história foram divulgadas publicamente sem que ela tivesse escolhido contar sua história daquela maneira.
Diante da repercussão, a atriz precisou se pronunciar publicamente sobre uma experiência que havia escolhido manter em sigilo. O caso gerou enorme repercussão e debates sobre privacidade, ética jornalística e violência decorrente da exposição digital.
O episódio deixou uma pergunta que continua atual:
Quando uma mulher perde o direito de decidir quem conhecerá sua própria história?
A resposta deveria ser: nunca.
Quando o algoritmo vira uma multidão
A violência digital também tem uma característica que potencializa o dano: a velocidade.
Uma mentira publicada por uma pessoa pode ser reproduzida por milhares.
Um vídeo íntimo pode ser baixado, reenviado e armazenado.
Uma montagem pode parecer verdadeira.
Uma acusação falsa pode destruir reputação antes que exista qualquer possibilidade de defesa.
E a vítima pode passar a receber ameaças de desconhecidos que nunca encontrou pessoalmente.
Por isso, não podemos tratar a violência digital como um problema “virtual”.
O sofrimento é real. O medo é real. O dano à reputação é real. A perda de emprego pode ser real. A ameaça à integridade física pode ser real.
A violência digital também pode chegar à rua
Um dos maiores perigos é acreditar que existe uma fronteira segura entre o mundo virtual e o mundo real.
Não existe.
Em agosto de 2026, por exemplo, ganhou repercussão o ataque sofrido por Marina Silva durante um evento público, episódio comentado como exemplo de uma agressividade alimentada no ambiente digital que pode transbordar para a vida presencial. (UOL Notícias)
A lógica é simples e perigosa: primeiro se desumaniza a mulher na tela; depois se normaliza a agressão; em seguida alguém entende que pode reproduzi-la fora dela.
Por isso, combater a violência digital também é política de segurança.
E quando a violência é política?
Há ainda uma dimensão que precisamos enfrentar: mulheres que ocupam espaços públicos — jornalistas, professoras, pesquisadoras, artistas, empresárias, ativistas, candidatas e mulheres com mandato — podem ser atacadas justamente por serem mulheres e por ousarem ocupar espaços de poder.
Insultos sexistas, ameaças, perseguição, montagem de imagens, sexualização, difamação e campanhas coordenadas de humilhação podem ter como objetivo não apenas ferir a mulher, mas silenciá-la e expulsá-la do espaço público.
Isso também é uma questão democrática. Porque quando uma mulher precisa escolher entre falar e ser atacada, a sociedade inteira perde.
O que fazer diante da violência digital?
Primeiro: não apague tudo no impulso.
Preserve provas sempre que possível:
* faça capturas de tela;
* guarde links e nomes de perfis;
* registre datas e horários;
* preserve mensagens e áudios;
* guarde e-mails;
* anote testemunhas;
* se houver conteúdo íntimo divulgado, evite continuar compartilhando o material para “mostrar o que aconteceu”.
Também denuncie o conteúdo à própria plataforma.
E procure orientação jurídica e policial quando houver ameaça, perseguição, divulgação de conteúdo íntimo, invasão de contas, fraude, exposição ou outras condutas criminosas.
E nós, o que fazemos quando recebemos um conteúdo?
Essa pergunta é fundamental.
Se alguém enviar uma foto íntima de uma mulher, não encaminhe.
Se receber um vídeo de violência, não transforme a dor da vítima em entretenimento.
Se aparecer uma montagem humilhante, não ajude a viralizar.
Se uma mulher contar que está sendo perseguida, não diga: “bloqueia e pronto”.
Se houver ameaça, leve a sério.
Se uma amiga disser “tenho medo dele”, não responda “mas ele parece tão tranquilo”.
E, principalmente, não pergunte primeiro:
“Por que você mandou a foto?”
Pergunte:
“Como eu posso te ajudar?”
A responsabilidade pela violência é de quem a pratica — não de quem existe, ama, trabalha, publica uma fotografia ou confia em alguém.
A internet precisa ser espaço de liberdade — não território sem lei
Precisamos de políticas públicas que acompanhem a velocidade da tecnologia.
Isso significa investigação especializada, capacitação das polícias e do sistema de Justiça, educação digital, prevenção nas escolas, apoio psicológico e jurídico às vítimas, responsabilização das plataformas quando cabível e políticas específicas para enfrentar a violência contra mulheres no ambiente digital.
Também precisamos ensinar meninas e meninos desde cedo que privacidade é direito, consentimento é específico e revogável, e nenhuma imagem íntima autoriza sua divulgação.
A tecnologia muda rapidamente.
O direito precisa acompanhar.
E a cultura precisa mudar ainda mais rápido.
Porque, no fim das contas, a internet não é um mundo separado do nosso.
É parte da nossa vida.
E se queremos mulheres livres, seguras e no poder, elas precisam poder existir também — e plenamente — do outro lado da tela.
Onde buscar ajuda
Ligue 180: orientação, acolhimento, registro e encaminhamento de denúncias. Gratuito, 24 horas por dia.
WhatsApp do Ligue 180: (61) 9610-0180. (Serviços e Informações do Brasil)
Emergência: Polícia Militar — 190. (Serviços e Informações do Brasil)
Também procure: Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), Delegacia de Polícia, Defensoria Pública, Ministério Público, Centros de Referência e demais serviços da rede de atendimento.
E uma coisa toda mulher precisa saber:
Você não precisa enfrentar a violência sozinha. Têm profissionais, inclusive eu, que metem a colher em briga de casal e de marido e mulher.
Para orientação sobre violência contra a mulher, direitos e serviços da rede, existe o Ligue 180, gratuito e disponível 24 horas. O canal também recebe denúncias e pode ser acionado pelo WhatsApp (61) 9610-0180. (Serviços e Informações do Brasil). Em casos de risco imediato, acione o 190.A vítima também pode buscar Delegacia da Mulher ou outra unidade policial, Defensoria Pública, Ministério Público, serviços de assistência social e equipamentos especializados da rede de proteção e organizações da sociedade civil. Todos(as) nós devemos meter a colher!

