Por que pessoas que mudam de sexo têm maiores tendências a transtornos mentais e quais transtornos

Dr. Fabiano de Abreu Agrela explica como a interação entre cérebro, hormônios, genética e alterações corporais pode ajudar a compreender um fenômeno observado em estudos científicos

 

A relação entre transição médica, cérebro e saúde mental envolve uma rede biológica complexa que ainda está sendo investigada pela ciência. Estudos realizados na Finlândia encontraram níveis significativamente maiores de morbidade psiquiátrica entre pessoas encaminhadas para serviços especializados de identidade de gênero quando comparadas à população de referência. Para o neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela, pós PhD em Neurociências, mestre em Psicologia e licenciado em Biologia, uma possível chave para compreender essa complexidade está na integração entre sistema hormonal, cérebro, genética e desenvolvimento sexual.

“Precisamos deixar de olhar o organismo como partes isoladas. O desenvolvimento sexual envolve genes, expressão genética, gônadas, hormônios, receptores e sistema nervoso. Esses elementos formam uma rede de comunicação que permanece ativa durante toda a vida”, explica Agrela.

O cérebro participa diretamente dessa rede por meio do eixo hipotálamo, hipófise e gônadas. Hormônios sexuais como testosterona e estradiol atuam em receptores presentes no sistema nervoso central e influenciam processos relacionados à expressão gênica, plasticidade neuronal, comportamento, sexualidade e regulação emocional. Uma alteração significativa na produção hormonal ou na anatomia sexual, portanto, modifica também os sinais biológicos aos quais o cérebro está continuamente exposto.

“Quando se altera uma estrutura desse sistema, não se altera somente a anatomia. Existe também uma alteração nos sinais hormonais e nos mecanismos de feedback que conectam o corpo ao cérebro. O organismo precisa se adaptar a uma nova configuração”, afirma o pesquisador.

Essa hipótese ajuda a contextualizar os resultados encontrados na Finlândia. Um estudo nacional publicado em 2023 acompanhou 3.665 pessoas que procuraram serviços especializados de identidade de gênero entre 1996 e 2019 e 29.292 controles. O grupo encaminhado apresentou necessidade de tratamento psiquiátrico muito maior do que os controles, tanto antes quanto depois do contato com os serviços especializados. Os autores também observaram que a elevada necessidade psiquiátrica persistia independentemente de a pessoa ter prosseguido ou não para redesignação médica.

Um estudo finlandês publicado em 2026 analisou 2.083 jovens encaminhados para serviços especializados antes dos 23 anos e 16.643 controles. A morbidade psiquiátrica grave foi identificada em 45,7% dos encaminhados antes do acompanhamento e em 61,7% após pelo menos dois anos, enquanto os valores correspondentes nos controles foram 15,0% e 14,6%. Entre os diagnósticos e manifestações psiquiátricas estudados encontram-se diferentes formas de transtornos do humor e ansiedade, além de outros problemas psiquiátricos. Os pesquisadores concluíram que a necessidade de cuidados psiquiátricos não desapareceu após a redesignação médica.

Outro trabalho baseado na mesma população finlandesa encontrou diagnóstico de transtorno de personalidade em 15,0% das pessoas encaminhadas para os serviços de identidade de gênero, contra 2,1% dos controles.

Entre os problemas psiquiátricos descritos na literatura relacionada a essas populações estão depressão, transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade, ideação suicida e transtornos relacionados ao uso de substâncias, além de outras condições psiquiátricas. A distribuição e a frequência variam conforme a população estudada, a idade, o período analisado e os critérios utilizados.

Para Agrela, entretanto, existe uma diferença fundamental entre observar essa associação e afirmar que a intervenção médica provocou os transtornos.

“Os dados não permitem dizer simplesmente que a cirurgia ou o tratamento hormonal causam transtornos mentais. Em muitos casos, a vulnerabilidade psiquiátrica já estava presente antes da intervenção. A pergunta científica mais interessante é compreender quais fatores explicam essa vulnerabilidade e como o cérebro e o organismo respondem às mudanças posteriores”, afirma.

Essa distinção é importante porque existem pesquisas que encontram resultados diferentes. Um grande estudo publicado em 2024, envolvendo mais de 4 mil pessoas submetidas a cirurgia genital de afirmação de gênero, encontrou associação entre a cirurgia e redução de diagnósticos de depressão, ansiedade, transtorno por uso de substâncias e suicidabilidade durante o acompanhamento.

Para Agrela, portanto, a explicação não deve ser reduzida a uma única causa. “Existe uma interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais. Do ponto de vista neurobiológico, precisamos estudar também a adaptação do sistema endócrino e do cérebro às alterações corporais e hormonais. A pergunta não é apenas o que acontece com o órgão que foi modificado, mas o que acontece com toda a rede fisiológica que se comunica com ele.”

A hipótese apresentada pelo neurocientista é que alterações importantes no sistema sexual possam produzir uma reorganização neuroendócrina, uma vez que hormônios sexuais e seus receptores estão diretamente relacionados ao funcionamento cerebral. Isso não significa que exista uma memória consciente nas células ou que o cérebro necessariamente rejeite a nova anatomia, mas que o organismo precisa estabelecer mecanismos de adaptação diante de uma nova configuração hormonal e corporal.

“Genes não são apenas códigos isolados. Eles participam de uma sequência de processos que envolve desenvolvimento, diferenciação celular, receptores e sinalização hormonal. Quando modificamos uma parte desse sistema, os demais componentes continuam funcionando e precisam responder à nova condição. É justamente essa adaptação que merece ser estudada”, explica Agrela.

A ciência, portanto, ainda investiga quais fatores estão por trás da maior prevalência de problemas psiquiátricos observada em algumas populações que procuram serviços de identidade de gênero. Os dados atuais demonstram uma associação consistente em determinados estudos, especialmente na população finlandesa, mas não permitem concluir que a transição médica seja, isoladamente, a causa dos transtornos.

Para Dr. Fabiano de Abreu Agrela, compreender essa relação exige uma abordagem que reúna neurociência, endocrinologia, genética e psicologia. “Quanto mais entendermos a comunicação entre corpo e cérebro, mais conseguiremos compreender por que indivíduos submetidos a processos semelhantes podem apresentar resultados psicológicos completamente diferentes.”.

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