O avanço acelerado da inteligência artificial tem transformado a forma como as pessoas tomam decisões, consomem informação e se relacionam com o mundo. Apesar da tecnologia trazer ganhos importantes de produtividade e acesso ao conhecimento, cresce a preocupação sobre o nível de dependência criado a partir do uso indiscriminado de algoritmos.
De acordo com Flávia Ceccato, auditora, pesquisadora do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, e pesquisadora do comportamento humano, autora do livro “Descobrindo a Inteligência Existencial: Ferramentas, Insights e Implicações”, pessoas com baixa inteligência existencial tendem a aceitar respostas prontas sem questionamento.
“Quando o indivíduo não reflete sobre propósito, valores e impacto das próprias escolhas, ele transfere essa responsabilidade para a tecnologia. É nesse vazio que os algoritmos passam a dominar”, explica.
O papel da inteligência existencial na era digital
A inteligência existencial está ligada à capacidade de questionar, atribuir sentido às experiências e refletir sobre decisões de forma consciente. Em um ambiente digital cada vez mais automatizado, essa habilidade se torna essencial para diferenciar informação de orientação, e apoio tecnológico de dependência.
Segundo Flávia, a IA opera com base em padrões, dados e probabilidades, mas não substitui o discernimento humano.
“A tecnologia não pensa, ela processa. Quem deixa de pensar criticamente passa a viver a partir das sugestões do algoritmo, seja no consumo de conteúdo, nas escolhas profissionais ou até nas relações pessoais”, afirma.
Quando o algoritmo decide pelo usuário
Plataformas digitais, redes sociais e ferramentas de IA generativa utilizam sistemas de recomendação altamente sofisticados. Esses sistemas aprendem com o comportamento do usuário e passam a oferecer respostas cada vez mais alinhadas às suas preferências, criando uma sensação de conforto e eficiência. Este problema, segundo a pesquisadora, surge quando não há questionamento.
“Sem um pensamento crítico bem desenvolvido, a pessoa não percebe que está presa a uma bolha. Ela acredita que está escolhendo, quando no final das contas ela está apenas reagindo a estímulos programados”, alerta.
Tecnologia exige consciência, não submissão
Flávia Ceccato defende que o debate sobre inteligência artificial precisa ir além da inovação técnica e alcançar o campo humano.
“Não é que a IA que torna as pessoas reféns, é a ausência de consciência que, no fim das contas, as torna reféns disto. Quanto menos o indivíduo se conhece e reflete, mais poder ele entrega à tecnologia”, conclui.

