Você já reparou…
Que quando um homem explode, dizem: “ele está estressado.”
Mas quando uma mulher chora, surta, entra em crise, se desespera…muita gente diz: “Ela é louca.” E essa palavra…“louca”…já foi usada para prender mulheres. Silenciar mulheres. Controlar mulheres. Apagar mulheres.
No mês da luta antimanicomial, a gente precisa falar de uma verdade dura: o sofrimento mental das mulheres ainda é tratado com preconceito, abandono e violência. E isso não começou hoje. Durante séculos, mulheres foram internadas porque desobedeciam. Porque falavam demais.Porque tinham depressão. Porque eram lésbicas. Porque sofriam violência, geralmente dentro da família. Porque não queriam se casar. Porque choravam. Porque tinham desejos. Porque “enlouqueciam” de tanto cuidar dos outros… sem ninguém cuidar delas.
No Brasil, milhares morreram em manicômios. Inclusive no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. Um lugar tão cruel que foi chamado de “Holocausto Brasileiro”. Mais de 60 mil pessoas morreram ali. E muitas eram mulheres pobres. Mulheres violentadas. Mulheres consideradas “incômodas”. Hoje os manicômios diminuíram. Mas o preconceito continua vivo.
Um estudo com mulheres com transtornos mentais mostrou algo assustador: 85% acreditavam que ter um transtorno mental fazia com que elas fossem menos respeitadas.
Quase 90% afirmaram sofrer preconceito. E sabe o que mais dói? Muitas nem chegaram a um psiquiatra. Receberam diagnósticos rápidos. Medicações mal acompanhadas. Tratamentos sem escuta. Porque muitas vezes a sociedade quer calar sintomas…sem escutar a dor.
E essa dor das mulheres tem endereço. Tem sobrecarga.
Tem violência doméstica. Tem racismo. Tem abandono.
Tem tripla jornada. Tem pobreza. Tem assédio. Tem culpa.
Tem solidão.
Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, a nova Pesquisa Nacional de Saúde Mental vai investigar exatamente como violência, discriminação e desigualdade afetam a saúde mental da população brasileira —
Hoje os manicômios diminuíram. Mas o preconceito continua vivo.
E não é coincidência. Mulheres têm quase o dobro de chance de desenvolver ansiedade e depressão em relação aos homens, segundo dados citados pela OMS. Porque adoecer mentalmente não é só uma questão individual. É também social.
A luta antimanicomial não significa abandonar pessoas em sofrimento. Significa defender tratamento humanizado. Cuidado em liberdade.CAPS(Centro de Atendimento Psicossocial) fortalecidos. Equipe multiprofissional. Escuta.
Moradia assistida. Renda. Rede de apoio. Direito à dignidade.
A própria Reforma Psiquiátrica brasileira nasceu denunciando torturas, maus-tratos e violações de direitos humanos nos manicômios. E hoje existe outro perigo: os “novos manicômios”.Instituições fechadas. Isolamento.
Violência religiosa quando não se respeita a fé alheia ou sua ausência. Internações involuntárias. Controle dos corpos.
O Conselho Nacional de Saúde denunciou recentemente graves violações em comunidades terapêuticas e reafirmou a defesa do cuidado em liberdade.
Mas eu também digo algo relevante: defender a luta antimanicomial não é romantizar o sofrimento mental. Famílias estão adoecendo. Mães cuidadoras estão exaustas.
Mulheres estão colapsando sem rede de apoio. E o Estado precisa parar de jogar tudo nas costas das mulheres. Porque não basta fechar manicômios…se não houver investimento em CAPS, saúde pública, assistência social, moradia assistida e cuidado contínuo.
Talvez você esteja lendo esse texto cansada. Ansiosa.
Sem conseguir dormir. Tomando remédio escondida.
Achando que pedir ajuda é fraqueza. Não é. Seu sofrimento não faz você menos digna. Menos inteligente. Menos mãe.
Menos mulher. E ninguém deveria ser reduzida a um diagnóstico.
A luta antimanicomial é, no fundo, uma luta por humanidade.
Porque toda pessoa em sofrimento psíquico precisa de cuidado. Não de abandono. Não de violência. Não de prisão social. E toda mulher precisa ser vista para além da dor.
E aqui em Uberlândia, a luta antimanicomial também tem propostas concretas do Fórum de Saúde Mental, com as queridas Fernanda Nocan, Ana Paula de Freitas, Denise DeCarlos, Maria Bertolino, Marisa Alves, Maria Lucia Romero, Ana Clara Cunha, Sandoval, Augusto, dentre outras pessoas incríveis. E tenho a honra de participar desde 2022.
Porque cuidado em liberdade precisa sair do discurso e virar política pública.
Entre as propostas defendidas para a cidade de Uberlândia, comuns a outras cidades estão: a reabertura do CAPS AD, fechado desde 2018; a criação de novos CAPS para infância e adolescência; mais CAPS para transtornos mentais em geral; mais Centros de Convivência e Cultura nos territórios.
Fortalecimento do Consultório na Rua; moradia inclusiva para pessoas em sofrimento mental sem apoio familiar. Garantia de medicamentos. Formação permanente antimanicomial para profissionais da rede. E fortalecimento da saúde mental na atenção básica, com cuidado integral e humanizado. Também é fundamental enfrentar o racismo dentro da saúde mental. Porque sofrimento psíquico também tem cor, classe social e território. As propostas defendem formação antirracista para profissionais da RAPS, participação do movimento negro nas políticas públicas e ações concretas para reduzir desigualdades raciais no cuidado em saúde mental.
E no mês da luta antimanicomial, Uberlândia realiza atividades importantes organizadas pelo Fórum de Saúde Mental de Uberlândia, ASSUSAN e usuários(as) dos serviços de saúde mental de Uberlândia e de Minas. No dia 18 de maio: audiência pública das 17h às 19h. E no dia 24 de maio: ação cultural no Dboche Pub Show, com arte, música, poesia e manifestações pela liberdade e pelo cuidado em liberdade.
Porque cultura também é cuidado. Convivência também é cuidado. Pertencimento também é cuidado. Trancar não é cuidar. Liberdade é o melhor cuidado, especialmente das mulheres. E não é coincidência. Mulheres têm quase o dobro de chance de desenvolver ansiedade e depressão em relação aos homens, segundo dados citados pela OMS.
Porque adoecer mentalmente não é só uma questão individual. É também social. E por isso, obviamente, eu meto a colher.

