SETEMBRO AMARELO: falar de vidas é falar de direitos

Setembro Amarelo chega mais uma vez trazendo para o centro das conversas um tema que não pode ser tratado com superficialidade: o sofrimento psíquico e a prevenção do suicídio. Mas, junto com a necessidade de falar, existe também a necessidade de informar. A desinformação pode ser perigosa, especialmente quando transforma uma realidade complexa em frases prontas, respostas simplistas ou fórmulas que prometem resolver aquilo que, muitas vezes, se quer conseguimos enxergar.

Para algumas pessoas, setembro pode também resgatar lembranças, perdas, experiências dolorosas e sentimentos que estavam silenciosos. Pode despertar gatilhos, sofrimento e emoções difíceis de nomear. E talvez essa seja uma das primeiras coisas que precisamos compreender: nem sempre os sinais estão diante dos nossos olhos. Muitas vezes, eles são invisíveis. Há pessoas que continuam trabalhando, sorrindo, cuidando dos filhos, cumprindo suas responsabilidades e, ainda assim, enfrentando uma dor que ninguém consegue perceber.

Fim do Preconceito é Fundamental Para Prevenção do Suicídio
Fonte: https://biblioteca.cofen.gov.br/fim-preconceito-prevencao-suicidio/

Não existem fórmulas mágicas. Nós não temos o poder absoluto de evitar todas as situações de sofrimento ou controlar todas as escolhas humanas. Mas temos responsabilidade sobre aquilo que construímos ao nosso redor. Existem falas moralistas que, mesmo aparentemente bem-intencionadas, acabam reduzindo a complexidade da saúde mental: “pense positivo”, “seja forte”, “você tem uma família”, “há pessoas em situações piores”. Quando transformamos sofrimento em falta de fé, de força ou de gratidão, deixamos de acolher justamente quem mais precisa ser escutado.

Por isso, antes de pedir a alguém que valorize a própria vida, talvez seja necessário fazer uma pergunta mais profunda: de que vida nós estamos falando? Uma vida marcada pela violência, pela fome, pela exclusão, pela solidão, pela falta de oportunidades, pelo preconceito ou pela ausência de direitos não pode ser discutida apenas a partir da responsabilidade individual. Cuidar da saúde mental também significa olhar para as condições concretas em que as pessoas vivem.

A prevenção do suicídio é, portanto, também uma questão política, porque diz respeito à defesa de determinado modelo de vida e de saúde. Não se trata apenas da aplicação de técnicas, protocolos ou orientações individuais. Trata-se de pensar que sociedade estamos construindo e quais vidas estamos dispostos a proteger. Não existe prevenção verdadeira quando os direitos fundamentais continuam sendo negados e quando desigualdades que produzem sofrimento são naturalizadas.

Talvez por isso precisemos ir além das frases motivacionais neste Setembro Amarelo. Palavras de incentivo podem acolher, mas não substituem políticas públicas, acesso à saúde, escuta qualificada, vínculos, proteção social e garantia de direitos. Falar de prevenção é também falar de redução das desigualdades, de acesso ao cuidado e da possibilidade de cada pessoa viver com dignidade, liberdade e pertencimento.

Que este Setembro Amarelo não seja apenas um mês de campanhas, laços e frases bonitas. Que seja um convite para escutarmos mais e julgarmos menos; para reconhecermos sofrimentos que não aparecem no rosto; para defendermos os direitos humanos e lutarmos por uma vida digna e livre para todos os seres humanos. Porque cuidar da vida não é apenas dizer a alguém que ela vale a pena. É trabalhar para que essa vida tenha condições reais de ser vivida.

Fonte: https://ufob.edu.br/noticias/setembro-amarelo-acao-discute-importancia-dos-cuidados-com-a-saude-mental

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *