Há trabalhos que sustentam o mundo — e, ainda assim, permanecem invisíveis.
O voluntariado é um deles.
Em tempos de aprofundamento das desigualdades sociais, crises humanitárias e fragilização de políticas públicas, o trabalho voluntário reaparece com força como expressão de solidariedade, compromisso coletivo e ação cidadã. No entanto, por trás dessa prática amplamente valorizada, há uma estrutura silenciosa que precisa ser nomeada: o voluntariado, no Brasil, tem gênero, tem cor, tem classe — e é profundamente atravessado pelas desigualdades que organizam a sociedade.
E mais: ele tem rosto de mulher.
Ao longo de mais de três décadas de atuação voluntária, seja no Núcleo de Estudos de Gênero, na SOS Mulheres — onde atuo há quase 30 anos — ou em diferentes frentes de enfrentamento às violências, pude testemunhar algo que os dados agora confirmam: são as mulheres que, majoritariamente, sustentam o cuidado coletivo.
Mas o que isso revela sobre nós enquanto sociedade?
O voluntariado no Brasil: entre a solidariedade e a estrutura
Dados recentes indicam que cerca de 6,5 milhões de pessoas realizam trabalho voluntário no Brasil. Dentre essas, aproximadamente 62% são mulheres, o que evidencia uma participação significativamente maior em relação aos homens.
Essa presença não é episódica. Ela se mantém ao longo do tempo e atravessa diferentes áreas de atuação — desde ações comunitárias até organizações do terceiro setor e iniciativas institucionais.
A distribuição por faixa etária também chama atenção. Há uma concentração expressiva de voluntárias com 50 anos ou mais, embora a participação de mulheres entre 25 e 49 anos também seja relevante. Trata-se, em muitos casos, de mulheres que já passaram anos — ou décadas — exercendo funções de cuidado no âmbito privado e que, posteriormente, expandem esse cuidado para o espaço público.
Ou seja: o voluntariado não surge do nada. Ele é continuidade.
Continuidade de uma cultura que atribui às mulheres a responsabilidade pelo cuidado — da casa, da família, dos filhos, dos idosos, das pessoas em situação de vulnerabilidade. Uma cultura que naturaliza esse papel e, ao mesmo tempo, o desvaloriza economicamente.
Gênero e trabalho não remunerado: a mesma lógica, outro nome
Quando analisamos o voluntariado à luz das relações de gênero, torna-se impossível ignorar sua conexão com o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
No Brasil, as mulheres dedicam quase o dobro do tempo que os homens às atividades de cuidado. Esse dado, amplamente documentado por pesquisas do IBGE, ajuda a compreender por que são elas também as que mais se engajam em ações voluntárias.
Não se trata apenas de “disposição” ou “vocação”. Trata-se de uma construção social.
O voluntariado, nesse sentido, revela uma contradição central: ao mesmo tempo em que é expressão de solidariedade e transformação, também reproduz desigualdades estruturais.
As mulheres cuidam — gratuitamente — dentro e fora de casa.
E a sociedade se sustenta sobre esse trabalho.
Raça, classe e acesso ao voluntariado
A análise do voluntariado também exige um olhar interseccional.
Em termos raciais, observa-se que cerca de 47,4% dos voluntários são brancos, 39,7% pardos e 11,4% pretos. Esses dados revelam uma sub-representação proporcional da população negra, especialmente quando consideramos sua presença majoritária em contextos de maior vulnerabilidade social.
Essa desigualdade não é casual.
O acesso ao voluntariado pressupõe, em alguma medida, a existência de tempo disponível — um recurso profundamente desigual em uma sociedade marcada pela precarização do trabalho, pela sobrecarga doméstica e pela desigual distribuição de renda.
Nesse sentido, a participação no voluntariado também é atravessada pela classe social. A maior concentração de voluntários está na chamada classe C, seguida pelas classes A/B, com menor presença das classes D/E.
Ou seja: o voluntariado, embora não seja exclusividade das elites, ainda está condicionado por desigualdades estruturais de acesso ao tempo, à renda e às oportunidades.
A escolaridade reforça essa leitura. Há maior participação de pessoas com ensino médio e superior, indicando que o capital educacional também influencia o engajamento cívico.
Voluntariado: potência e limite
Diante desse cenário, é preciso afirmar com clareza: o voluntariado é potência.
Ele mobiliza, articula, transforma, acolhe, cria redes e salva vidas. Em momentos de crise, como vimos recentemente em desastres climáticos e na pandemia, o trabalho voluntário foi decisivo para garantir assistência onde o Estado não chegava.
Mas é igualmente necessário reconhecer seus limites.
O voluntariado não pode — e não deve — substituir o dever do Estado.
Quando isso acontece, corremos o risco de naturalizar a ausência de políticas públicas e de transferir para indivíduos, especialmente mulheres, a responsabilidade por enfrentar problemas estruturais.
É aqui que a discussão sobre políticas públicas se torna central.
O avanço das políticas de voluntariado: o exemplo de Contagem
A recente Lei nº 5.080, sancionada no município de Contagem (MG), representa um avanço importante ao instituir uma Política Municipal do Voluntariado e do exercício da cidadania.
A proposta é clara: estruturar, capacitar, articular e acompanhar as ações voluntárias, integrando-as às políticas públicas e promovendo uma cultura de participação cidadã.
A iniciativa dialoga com experiências de outras cidades e com organizações como o Minas Voluntários, e aponta para um caminho necessário: transformar o voluntariado em política pública, sem descaracterizar sua essência, mas reconhecendo sua relevância social.
Desde 2018, o projeto Transformar Contagem já contabilizou mais de 38 mil horas de trabalho voluntário e a distribuição de mais de 100 toneladas de donativos, evidenciando o impacto concreto dessas ações.
E o Brasil? O que diz a legislação
No plano federal, o voluntariado é regulamentado pela Lei nº 9.608/1998, que define o serviço voluntário como atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidades públicas ou privadas sem fins lucrativos, sem geração de vínculo empregatício.
A lei estabelece a necessidade de formalização por meio de termo de adesão e garante segurança jurídica para as instituições e voluntários.
No entanto, trata-se de uma legislação reguladora, e não de uma política pública estruturante.
Nos estados, incluindo Minas Gerais, há iniciativas e programas de incentivo ao voluntariado, mas ainda são fragmentados e, muitas vezes, dependentes de governos específicos, sem a consolidação de uma política ampla e permanente.
Isso revela uma lacuna — e, ao mesmo tempo, uma oportunidade.
Transformar o cuidado em política
Se as mulheres são maioria no voluntariado, não é por acaso.
É porque continuam sendo as principais responsáveis pelo cuidado — um trabalho historicamente invisibilizado, desvalorizado e não remunerado.
Reconhecer o voluntariado como política pública é um passo importante. Mas é preciso ir além.
É necessário:
- reconhecer o valor econômico e social do cuidado
- redistribuir responsabilidades entre homens, Estado e sociedade
- garantir políticas públicas que não dependam exclusivamente da ação voluntária
- e promover igualdade de acesso ao engajamento cívico
O voluntariado deve ser fortalecido — sim.
Mas também precisa ser problematizado.
Porque, enquanto ele revela o melhor da sociedade, também expõe suas desigualdades mais profundas.
O voluntariado transforma vidas e a si mesma
Após mais de 30 anos de atuação voluntária, afirmo sem hesitação: cuidar é um ato político.
O voluntariado transforma vidas — inclusive a de quem o pratica. Ele constrói sentido, pertencimento, redes e possibilidades.
Mas ele também nos convoca a pensar:
Quem cuida de quem cuida?
Quem tem tempo para cuidar?
Por que o cuidado ainda tem gênero?
Se quisermos uma sociedade mais justa, não basta celebrar o voluntariado.
É preciso transformá-lo — e transformar as estruturas que o sustentam. É preciso meter s colher.🥄

