
Um novo estudo da University College London (UCL), publicado na revista científica Innovation in Aging, sugere que pessoas que convivem por longos períodos com baixa renda ou problemas financeiros apresentam pior desempenho cognitivo na meia-idade e sinais mais acentuados de envelhecimento cerebral na velhice.
O estudo
A pesquisa acompanhou 2.759 pessoas nascidas no Reino Unido em 1946 por mais de sete décadas. Durante esse período, os participantes informaram sua situação financeira, realizaram testes de memória e raciocínio e, parte deles, passou por exames de ressonância magnética para avaliar a estrutura do cérebro.
Os resultados mostraram que aqueles que enfrentaram dificuldades financeiras persistentes tiveram pior desempenho em testes de memória verbal e velocidade de processamento aos 53 anos. Além disso, os exames de imagem identificaram maior atrofia cerebral e aumento dos ventrículos, alterações frequentemente associadas ao envelhecimento do cérebro.
De acordo com o Pós PhD em neurociências e membro do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, Dr. Fabiano de Abreu Agrela, o estudo não indica que a falta de dinheiro, isoladamente, seja responsável pelas alterações.
“A dificuldade financeira, por si só, não envelhece o cérebro. O que realmente pesa é o ambiente que ela cria. O estresse crônico, uma alimentação de pior qualidade, menos oportunidades para atividade física, maior exposição a vícios e até noites mal dormidas acabam formando um conjunto de fatores que favorecem o comprometimento da saúde cerebral”.
O estresse pode ser um dos principais fatores
Os pesquisadores sugerem que o estresse prolongado provocado pelas dificuldades financeiras pode desencadear processos inflamatórios e aumentar a sobrecarga mental ao longo da vida, contribuindo para o declínio cognitivo. Além disso, o estudo observou que os efeitos foram mais intensos entre homens e em pessoas que cresceram em condições socioeconômicas desfavoráveis. Também houve maior impacto em participantes portadores da variante genética APOE-ε4, conhecida por aumentar o risco para a doença de Alzheimer.
Para o Dr. Fabiano de Abreu Agrela, isso demonstra que a saúde cerebral depende de uma combinação de fatores biológicos, ambientais e comportamentais.
“O cérebro responde ao estilo de vida que levamos durante décadas. Quando uma pessoa vive sob pressão constante, com poucas oportunidades de cuidar da própria saúde, os impactos tendem a se acumular ao longo do tempo”.
É possível reduzir esse impacto
Apesar dos fatores financeiros nem sempre estejam sob controle, o especialista destaca que alguns hábitos ajudam a proteger o cérebro mesmo em momentos difíceis.
“Mesmo diante das dificuldades, manter uma rotina mínima de atividade física, buscar uma alimentação equilibrada dentro das possibilidades, preservar o sono e cultivar relações sociais saudáveis ajudam a reduzir parte dos efeitos do estresse sobre o cérebro. Pequenas mudanças, quando mantidas por muitos anos, fazem diferença.”
Os próprios autores do estudo ressaltam que a pesquisa encontrou uma associação entre dificuldades financeiras e pior saúde cerebral, mas não comprova uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, os resultados reforçam a importância de olhar para a saúde de forma ampla, considerando que fatores econômicos, emocionais e hábitos de vida caminham juntos quando o assunto é envelhecimento saudável.
“O cérebro não envelhece apenas pela idade cronológica, ele também reflete o ambiente em que vive. Quanto mais conseguimos reduzir fatores de risco e fortalecer hábitos saudáveis, maiores são as chances de preservar a cognição ao longo da vida”, conclui o Dr. Fabiano de Abreu Agrela.

