Um estudo publicado recentemente na revista científica Scientific Reports trouxe novos indícios sobre como a verbalização de emoções pode ajudar pessoas com traços autistas a lidar melhor com a ansiedade. A pesquisa analisou a relação entre intolerância à incerteza, traços do espectro autista e a capacidade de colocar sentimentos em palavras.
Os pesquisadores avaliaram 505 adultos japoneses entre 20 e 39 anos e observaram que participantes com traços autistas mais marcados apresentavam níveis maiores de ansiedade diante de situações imprevisíveis. Ao mesmo tempo, esses indivíduos demonstraram maior tendência a verbalizar aquilo que estavam sentindo, estratégia que pode ajudar na regulação emocional.
De acordo com o psicanalista, mestre em neurociências e Gestor de Projetos Científicos do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, Adriel Silva Weber, o estudo reforça a importância do reconhecimento emocional como ferramenta de equilíbrio psicológico.
“O estudo traz um indicativo importante de que a identificação e nomeação correta de emoções ajuda a processá-las melhor. Quando a pessoa consegue transformar uma sensação difusa em algo identificável cognitivamente, existe uma tendência de redução da sobrecarga emocional”, explica.
Segundo os pesquisadores, pessoas com traços autistas podem apresentar maior dificuldade em lidar com imprevisibilidade, mudanças repentinas e situações pouco estruturadas. Esse fenômeno é conhecido como intolerância à incerteza e está frequentemente relacionado ao aumento da ansiedade. Os autores destacam que os traços autistas existem em diferentes níveis na população e não se restringem apenas a pessoas com diagnóstico formal de TEA.“Quando o cérebro encontra dificuldade para prever cenários ou interpretar determinados contextos sociais, isso pode gerar um estado constante de alerta emocional. Esse processo pode intensificar sintomas como tensão, irritabilidade, exaustão mental e crises de ansiedade”, afirma Adriel Silva Weber.
Dar nome às emoções ajuda o cérebro a processá-las
A pesquisa reforça uma hipótese já observada em estudos anteriores: verbalizar emoções pode tornar sentimentos difíceis mais toleráveis. Isso pode acontecer internamente, em voz alta, durante conversas ou até por escrito.
“O cérebro organiza melhor aquilo que consegue identificar. Quando a pessoa nomeia o que sente, ela reduz parte da sensação de caos emocional. Esse mecanismo ativa áreas cognitivas relacionadas à interpretação e ao controle emocional, facilitando processos de regulação psicológica”, destaca.
Estratégia pode ajudar em terapias
Os pesquisadores apontam que os resultados podem ter aplicações práticas em ambientes escolares, terapêuticos e familiares. Auxiliar uma pessoa a reconhecer emoções específicas pode favorecer a comunicação emocional e reduzir sofrimento psíquico.
“Muitas vezes a pessoa sente ansiedade, frustração ou sobrecarga, mas não consegue identificar claramente aquilo. Quando alguém ajuda a reconhecer esse estado emocional, isso pode trazer sensação de segurança e compreensão”, explica Adriel Silva Weber.
Ferramentas visuais, escalas emocionais, exercícios de comunicação afetiva e acompanhamento terapêutico estão entre as estratégias mais utilizadas nesse processo.
Resultados ainda são preliminares
Apesar dos achados, os próprios autores destacam que o estudo possui limitações. Os participantes analisados não tinham diagnóstico clínico formal de autismo, o que impede generalizações definitivas para toda a população autista. Os pesquisadores agora realizam estudos complementares com adultos diagnosticados com TEA para avaliar se os mesmos padrões emocionais se repetem.
“Mesmo sendo preliminares, os dados ajudam a ampliar a compreensão sobre como emoções, ansiedade e processamento cognitivo se relacionam no espectro autista”, finaliza Adriel Silva Weber.
Adriel Silva Weber é psicanalista, escritor, pesquisador e palestrante, com formação em Física pela Unisinos e MBAs em Gestão de Projetos e Pessoas. Atualmente, cursa Psicologia na Uniftec e um mestrado em Neuropsicologia pela Universidad Europea del Atlántico. É Gestor de Projetos Científicos do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, atuando em projetos como Gifted Debate, Neurogenomic, RG-TEA, entre outros. Trabalha como Senior Technical Support na SAP Labs Latin America e foi líder de CSR por cinco anos. Membro da Mensa Brasil e do CPAH, apresenta seminários e participa de grupos de pesquisa. Possui dupla excepcionalidade, sendo superdotado e autista, e é autor de livros que exploram neurodiversidade e desenvolvimento infantil.

