Quem cuida precisa ser cuidada: o envelhecimento, o silêncio e exaustão das mulheres

Todos os dias, em silêncio, milhares de mulheres acordam antes do sol nascer. Não porque escolheram uma rotina produtiva ou disciplinada, mas porque alguém depende delas para viver. Uma mãe idosa, um pai acamado, uma pessoa com deficiência, um companheiro adoecido. Elas levantam, organizam medicação, preparam alimentos, ajudam no banho, limpam, vigiam, acolhem. E seguem. Sem pausa. Sem descanso. Sem reconhecimento.

Muitas fazem isso por amor. Mas também fazem porque não há alternativa.

A história da “Maria” — nome fictício, realidade concreta — não é exceção. Há quatro anos ela cuida da mãe acamada. Saiu do trabalho, reduziu sua vida social, passou a viver em função de uma rotina exaustiva. Seu corpo dói. Seu sono é interrompido. Sua saúde mental oscila. Ainda assim, ela segue. Porque, no Brasil, o cuidado tem gênero, endereço e classe social: ele é feminino, acontece dentro de casa e recai, majoritariamente, sobre mulheres pobres e de classe média.

E o mais duro: essa realidade não é um acaso. É resultado direto da ausência de políticas públicas estruturadas de cuidado.

Vivemos uma transformação demográfica profunda. O Brasil está envelhecendo — e rápido. A expectativa de vida aumentou, as famílias diminuíram e as redes de apoio se fragilizaram. Isso significa que teremos, cada vez mais, pessoas idosas demandando cuidado contínuo. Ao mesmo tempo, teremos menos pessoas disponíveis para cuidar. Essa conta não fecha sozinha. E, quando não fecha, alguém paga o preço.

Hoje, quem paga são as mulheres.

Filhas, noras, esposas, irmãs. Elas assumem o cuidado como uma extensão “natural” de sua função social e sem salário, férias, 13º ou aposentadoria por esse trabalho árduo. São ensinadas desde cedo a cuidar dos outros, mas não a serem cuidadas. E assim, o que deveria ser uma responsabilidade coletiva se transforma em uma sobrecarga individual, invisível e, muitas vezes, adoecedora.

O cuidado, que deveria ser um direito compartilhado, se transforma em um fardo solitário.

Essa sobrecarga tem consequências concretas. Mulheres deixam o mercado de trabalho, perdem renda, interrompem projetos de vida. Adoecem física e emocionalmente. Vivem exaustas. E, ainda assim, seguem sendo vistas como “fortes”, como se isso fosse virtude — quando, na verdade, é abandono institucional disfarçado de resiliência.

Mas essa realidade não é inevitável.

Existem caminhos. Existem experiências concretas que mostram que é possível fazer diferente. Políticas públicas de cuidado domiciliar, com profissionais capacitados, acompanhamento social e integração com a saúde, já demonstraram impactos positivos: reduzem internações hospitalares, evitam institucionalizações, melhoram a qualidade de vida de pessoas idosas e, principalmente, aliviam a sobrecarga das famílias.

Mais do que isso: reconhecem que cuidar é trabalho. E que esse trabalho precisa ser compartilhado.

Quando o Estado se omite, ele não apenas deixa de agir — ele escolhe quem vai carregar o peso. E, historicamente, esse peso recai sobre as mulheres.

Falar de envelhecimento, portanto, não é apenas falar de idosos(as). É falar de justiça social, de igualdade de gênero, de políticas públicas e de futuro. É reconhecer que estamos diante de um dos maiores desafios sociais das próximas décadas — e que ignorá-lo é aprofundar desigualdades.

Cuidar de quem envelhece é uma responsabilidade coletiva. Mas cuidar de quem cuida é uma urgência política.

Precisamos romper com a lógica de que o cuidado é privado, invisível e feminino. Precisamos trazer esse debate para o centro das políticas públicas, do orçamento, do planejamento das cidades. Precisamos construir redes de apoio que garantam dignidade não apenas para quem precisa de cuidado, mas também para quem sustenta esse cuidado todos os dias.

Porque nenhuma sociedade que sobrecarrega suas mulheres pode se considerar justa.

E porque ninguém deveria precisar adoecer para cuidar de quem ama.

Que a história da Maria deixe de ser regra. E passe a ser o ponto de virada.

Tenho a sensação de que essa realidade se modifica na medida em que colocarmos mulheres na política e nos espaços de poder e decisão, onde atualmente estão sub-representadas, mesmo sendo a maior da população.

Por tudo isso, eu meto a colher🥄.

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