Nem Toda Mãe Cabe no Comercial de TV: mães reais e plurais

Neste mês de maio, mês em que se comemora o Dia das Mães, a gente quer ir além do clichê da flor, da propaganda de comercial de TV ou de um “feliz Dia das Mães” com buquê e café na cama.

Sinto-me honrada e emocionada em ter os jovens Vitor e Dudu, amores de minha vida que nunca me deram trabalho. Só contrário, só afeto, boas trocas e orgulho! Amo de maus. Tanto que até dói.

Quero falar das mães reais, das mães de carne, osso e alma. Daquelas que cuidam, amam, trabalham, choram, e seguem. Das mães múltiplas e diversas que vivem no Brasil — onde a maternidade, muitas vezes, é atravessada por solidão, falta de apoio e invisibilidade.

Dedico esse artigo à minha avó Mira, mãe duas vezes, que ajudou a me criar e com quem aprendi valores imprescindíveis e à minha mãe Maria Lúcia, chefe de família de quatro. Te amo muito e sou grata por sempre apoiar minhas escolhas de vida, escutar e acolher minhas dores.

A gente cresceu ouvindo que ser mãe é ter amor incondicional, força, resiliência, coragem. E sim, isso é verdade. Mas o que quase nunca nos disseram é que o sistema social, político e econômico espera que as mães façam tudo — e sozinhas.

Cuidem dos(as) filhos(as), dos(as) doentes, dos(as) idosos(as). Dêem conta do trabalho, da casa, da escola, do alimento, do afeto. Tudo isso sem apoio estrutural, sem redes de proteção, sem valorização. E quase sempre, sem descanso.

Você sabia que mais de 80% das mães brasileiras são responsáveis sozinhas pelos(as) filhos(as)? São as chamadas mães solo. Mulheres que arcam com tudo: boletos, cuidados, noites mal dormidas, decisões difíceis, e ainda precisam sustentar a casa — isso quando conseguem um emprego.

Porque, sim: ser mãe impacta diretamente o acesso ao mercado de trabalho. Existe um nome pra isso: maternidade penalizada. Mulheres com filhos(as) enfrentam mais dificuldade para serem contratadas, promovidas ou até mesmo para permanecerem no emprego. Já os homens, ao se tornarem pais, muitas vezes são vistos como mais responsáveis e confiáveis. Isso tem nome: machismo/sexismo estrutural.

Agora, vamos falar das mães atípicas. Mães de crianças com deficiência, autismo, síndromes raras, doenças crônicas. Mars de Pet. Mães que não têm pausa. Que passam horas em filas de postos de saúde, tentam laudos com profissionais escassos, lutam por inclusão em escolas, nem sempre preparadas.

E que viram especialistas em legislações, terapias, remédios. Uma mãe me disse que se sente mais gestora de um sistema de saúde e de educação do que mãe. E mesmo assim, ela canta, brinca, ensina. Segue.

Essas mães vivem num país que ainda não aprendeu a acolher as diferenças. Que ainda julga mais do que estende a mão.

E o que dizer das mães que perderam seus(suas) filhos (filhas)? Para a violência urbana, o feminicídio, o racismo e o abandono do Estado. Mães como as do movimento Mães de Maio, que transformaram o luto em luta por justiça. Mães que são resistência. Que nos lembram que maternidade também é um ato político.

Tem também as mulheres da chamada geração sanduíche: aquelas que cuidam dos(as) filhos(as) e dos(as) pais e mães  idosos (as) ao mesmo tempo. Muitas vezes abrindo mão da própria carreira, dos sonhos, da saúde. São mães e filhas cuidadoras — sem descanso, sem apoio, sem política pública.

E as mães LGBT+? Que enfrentam preconceitos dentro e fora da família. Que veem seus laços de amor e maternidade serem constantemente deslegitimados. Que lutam para que seus filhos(as) cresçam em ambientes seguros e respeitosos.

E as mães negras? Que criam seus(suas) filhos(as) em um país racista, que olha com desconfiança para a infância negra, que abandona a juventude negra. Mães que, além da maternidade, carregam o peso do racismo estrutural, da pobreza e da desigualdade.

E as mães periféricas, que vivem em territórios marcados pela falta de serviços básicos, pelo transporte precário, pela violência do Estado, pelo medo diário de que seus(suas) filhos(as) não voltem pra casa?

A lista é longa, porque as maternidades são múltiplas. Mas todas essas mulheres têm algo em comum: amor e luta.

Por isso, neste mês das mães, o convite que a gente faz aqui, é pra que a gente abrace essas realidades com mais empatia e, principalmente, com mais ação política.

Política de verdade, da que transforma. Porque ser mãe não pode continuar sendo sinônimo de sofrimento solitário.

Quero falar da minha mãe, Maria Lúcia…que criou quatro como chefe de família, sendo eu a mais velha que ajudava  a pagear.

Compartilho com você a mãe que tenho conseguido ser com nossos filhotes…

Quer valorizar as mães? Então defenda:

  • Creche pública, gratuita e de qualidade;
  • Licença-maternidade ampliada e igualitária para todas, inclusive para mães solo e autônomas;
  • Licença-paternidade real e amoliada, que divida de verdade as tarefas e o cuidado;
  • Reconhecimento das mães atípicas e políticas de acessibilidade e inclusão;
  • Saúde mental materna como prioridade;
  • Proteção para mães em situação de violência;
  • Apoio à renda, negócio próprio,  moradia, alimentação e autonomia das mulheres.

E, no cotidiano, divida tarefas. Escute. Respeite os limites das mães à sua volta, execute tarefas  — uma comida, um tempo, um abraço, uma escuta.

Se você é mãe e está exausta: você não está sozinha. Você não precisa dar conta de tudo. Você tem direito ao descanso, ao cuidado, ao reconhecimento. Defendo a jornada 5×2 , sem redução de salário para você ter lazer, frequentar espaço religioso, poder cuidar de si para o bem viver.

E se você conhece uma mãe, pergunte: Como posso te ajudar?

Às vezes, o que a gente mais precisa não são flores. É apoio real.

Um abraço forte, principalmente às mães que hoje estão em silêncio, lutando batalhas invisíveis.

Vocês são grandes. E merecem o mundo. E por ileso l, eu meto a colher! 💜🥄

 

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