Julho é marcado pelas comemorações do Dia do Motorista (25) e do Dia do Motociclista (27), mas o que deveria ser um momento de valorização e conscientização expõe, na verdade, um cenário preocupante: a violência no trânsito brasileiro voltou a crescer, com destaque para o aumento expressivo de mortes entre motociclistas. É o que revela o Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Segundo o relatório, o Brasil registrou 392 mil mortes no trânsito entre 2010 e 2019 — crescimento de 13,5% em comparação com a década anterior. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes aumentou 2,3%, mesmo com o período marcado pela Década de Ação pela Segurança no Trânsito, proposta pela Organização das Nações Unidas. Dados mais recentes, de 2020 a 2023, mantêm a tendência de alta, reforçando a gravidade do problema.
O avanço na frota de motocicletas, somado à falta de infraestrutura adequada, deficiências na fiscalização e ausência de formação de condutores, está diretamente ligado ao aumento da mortalidade sobre duas rodas. O número de mortes de motociclistas cresceu mais de dez vezes nos últimos 30 anos, segundo o estudo.
Para Diogo Figueiredo, gerente de capacitação e treinamentos da CEPA Mobility Brasil, esse aumento está diretamente relacionado à precariedade da gestão pública e à pressão enfrentada por quem utiliza a moto como ferramenta de trabalho. “O uso profissional da moto aumenta a exposição ao risco. A busca por rapidez e cumprimento de prazos incentiva práticas perigosas, como excesso de velocidade e manobras arriscadas. É fundamental investir em campanhas educativas voltadas para motociclistas e fortalecer programas de formação e reciclagem”, defende.
Diogo também reforça a importância de políticas públicas mais efetivas, que envolvam melhorias na infraestrutura viária, aumento da fiscalização e aplicação rigorosa das leis de trânsito.
Apesar das datas comemorativas, o investimento público na segurança viária segue em queda. O Atlas aponta que recursos destinados à área vêm sofrendo cortes sistemáticos. A redução da Cide-Combustíveis (por meio da Medida Provisória nº 1163/2023) impactou diretamente os repasses ao setor de transportes. O Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), sustentado por multas de trânsito, também tem sido subutilizado, enquanto o seguro obrigatório DPVAT foi extinto e sua tentativa de substituição, o SPVAT, revogada antes mesmo de entrar em vigor (Lei Complementar nº 211/2024).
Na avaliação de especialistas, esse vácuo nas políticas públicas e a falta de prioridade institucional têm consequência direta no aumento da violência no trânsito. Motociclistas, que já representam uma parcela significativa das vítimas de sinistros, seguem sendo os mais afetados por um sistema que os expõe diariamente à insegurança, ao risco e à negligência do poder público.