Se Minas falha, as mulheres são as que mais sofrem

A crise tem rosto: em Minas, o de mulher.                                               

Se falta vaga na saúde pública, ela passa horas em filas acompanhando familiares. Se o preço dos alimentos sobe, reduzem a própria comida para garantir a das crias. Se faltam creches, abandonam empregos. Se a violência cresce, mudam trajetos e se reorganizam para sobreviver. As falhas do Estado recaem de forma dura e cruel sobre elas. Na saúde, elas enfrentam demora em exames, atendimento ginecológico, dificuldade no acesso à saúde mental, falta de acolhimento humanizado e escassez de políticas para climatério e menopausa. São mães atípicas adoecidas pela sobrecarga. Cuidadoras invisíveis sustentando o que o poder público não alcança. A Secretaria de Estado reconheceu os desafios para garantir atenção integral à saúde das mineiras (SES-MG, 2025).                                                                      

A face brutal dessa falha está na violência, com quase 50 mil casos de violência às mulheres em atendimentos de saúde apenas em 2025 (Rádio Itatiaia, 2026), o que significa mais de 5 violentadas por hora. E muitas cidades não possuem estrutura adequada de acolhimento, prevenção e proteção. Faltam equipes, interiorização dos serviços, políticas continuadas e orçamento suficiente. O debate institucional em Minas já reconhece o acolhimento às mulheres em situação de violência como um dos maiores desafios da rede pública (CMBH, 2025).                                                       

E há uma dimensão ainda mais silenciosa: o adoecimento emocional. Há uma epidemia de exaustão feminina. Professoras e profissionais da saúde esgotadas. Mães solo sustentando famílias inteiras. Mulheres que trabalham fora e continuam responsáveis pelo cuidado doméstico. Mulheres que cuidam de idosos, pessoas com deficiência, familiares doentes e filhos(as) quase sem rede de apoio. O que é chamado de “amor” também é sobrecarga. Filósofa denuncia que o trabalho invisível das mulheres sustenta economicamente a sociedade sem reconhecimento nem valorização (Federici, 2017). Socióloga alerta que desigualdade e violência de gênero caminham lado a lado nas estruturas (Saffioti, 2004). Em Minas, isso se agrava entre mulheres negras, periféricas, rurais e em vulnerabilidade. Estudos apontam dificuldades de acesso à saúde, saneamento e proteção social entre mulheres do campo mineiro (Leal et al, 2025). Levantamento mostrou a extrema vulnerabilidade vivida por mulheres em situação de rua, atravessadas por violência, insegurança alimentar e dificuldades de acesso ao SUS (Alves et al, 2025).                                                               

A sociedade naturalizou esse sofrimento: mulheres cansadas,  mães sem descanso, cuidadoras adoecidas, o medo, a sobrecarga como obrigação. Mas não é.                                 Nenhuma democracia é justa com elas sustentando as falhas do Estado. Políticas públicas para mulheres significa enfrentar desigualdades que afetam o presente de  famílias. Cuidar das mulheres é investimento, desenvolvimento social, proteção coletiva e justiça. Porque política é cuidado.

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