
Em consultórios, salas de aula, lares e espaços de acolhimento, uma pergunta ecoa com frequência:
“Por que essa criança se comporta assim?”
Quando falamos de crianças e adolescentes com comportamentos desafiadores, essa pergunta costuma vir carregada de cansaço, frustração e, muitas vezes, culpa. Mas ela parte de uma lente limitada. A pergunta que realmente nos ajuda a cuidar melhor é outra:
“O que este comportamento está tentando comunicar?”
Comportamento é linguagem.
Crianças e adolescentes se comunicam o tempo todo. Quando não conseguem expressar em palavras o que sentem, o corpo e o comportamento falam por eles. A agressividade, a oposição, o isolamento, a impulsividade ou a aparente indiferença não surgem do nada. São respostas aprendidas em contextos onde a segurança emocional falhou. Por isso, afirmo com convicção:
o comportamento desafiador não é o problema em si, mas um sinal de necessidades emocionais não atendidas.
Mas, o que geralmente está por trás do comportamento desafiador?
Em minha experiência com famílias, educadores e cuidadores, alguns fatores aparecem de forma recorrente:
- Histórias de ruptura de vínculos
Muitas dessas crianças viveram abandono, rejeição, negligência, violência ou perdas significativas. Quando os adultos falham em ser previsíveis e protetores, a criança aprende que o mundo não é confiável. O comportamento desafiador passa a ser uma forma de testar: “Você vai ficar ou também vai me deixar?”
- Um sistema nervoso em modo de sobrevivência
Crianças expostas ao estresse tóxico vivem em estado de alerta. Seus corpos estão preparados para lutar, fugir ou se desligar emocionalmente. Nesse estado, o cérebro não está disponível para aprender, cooperar ou refletir. O que vemos como desobediência é, muitas vezes, uma resposta automática de sobrevivência.
- Falta de habilidades, não de caráter
Crianças não se comportam mal porque querem. Elas se comportam mal porque ainda não aprenderam a fazer melhor. Autorregulação emocional, comunicação de sentimentos, tolerância à frustração e confiança no adulto são habilidades que se constroem em ambientes seguros e não em contextos de medo.
- Medo de depender
Especialmente na adolescência, o comportamento opositor pode esconder uma crença profunda: “Depender machuca.” Muitos precisaram amadurecer cedo demais, aprenderam a cuidar de si sozinhos e passaram a ver a dependência como risco, não como proteção.
- Busca por conexão, mesmo que negativa
Quando a conexão saudável falha, o conflito pode se tornar a única forma conhecida de proximidade. Atenção negativa ainda é atenção. O desafio, nesse caso, é um pedido distorcido de vínculo.
Mudar a lente muda a resposta. Quando olhamos para o comportamento apenas pela ótica da disciplina, corremos o risco de reforçar a dor que já existe. Por isso, convido adultos cuidadores a trocarem a pergunta:“O que há de errado com essa criança?”por “O que aconteceu com essa criança?” Essa mudança não elimina a necessidade de limites, mas transforma profundamente a forma como eles são oferecidos.
Cuidar de crianças e adolescentes desafiadores exige mais do que técnicas; exige presença reguladora. O adulto precisa ser:
- Um porto seguro, não um adversário
- Alguém que oferece regulação antes da correção
- Uma referência previsível, empática e firme
- Um modelo vivo de autorregulação emocional
Limites continuam sendo essenciais, mas só funcionam quando nascem de um relacionamento seguro. Sem vínculo, o limite vira ameaça. Com vínculo, ele se torna proteção.
Assim, o comportamento desafiador não é um inimigo a ser combatido, mas um convite à escuta. Ele nos chama a olhar além da superfície, a considerar histórias invisíveis e a responder com humanidade. Quando adultos escolhem interpretar o comportamento como comunicação, criam o espaço onde a verdadeira mudança pode acontecer. Porque toda criança que desafia está, no fundo, perguntando:
“Você consegue me ver para além do que eu faço?” E a resposta a essa pergunta pode transformar vidas.

