Ansiedade nas mulheres: sofrimento do nosso tempo

                                           Da escola da guerra da vida — o que não me mata me fortalece. (Nietzsche, 2006)

 

 

 

Introduzindo a prosa

Ao longo da história, a ansiedade nas mulheres foi frequentemente mal compreendida, patologizada ou moralizada.

A contemporaneidade, marcada pela aceleração produtiva, hiperconexão e culto ao desempenho, intensificou experiências de medo, exaustão e expectativa. Este artigo articula história, neurociência, trauma-sofrimento, espiritualidade e estudos de gênero para compreender o fenômeno. 

Ansiedade, Corpo e Gênero: o que não nos contam sobre esse mal-estar histórico que atinge corpo, mente e relações?

  1. A ansiedade como construção histórica Na Antiguidade e até o século XIX, sintomas como angústia, medo constante, inquietação e crises emocionais eram atribuídos à chamada histeria, um diagnóstico profundamente marcado pelo machismo médico, que vinculava o sofrimento psíquico feminino ao útero, à sexualidade ou à “natureza instável” das mulheres. Em vez de serem entendidas como respostas a contextos de opressão, sobrecarga e violência, essas manifestações eram tratadas como fraquezas individuais ou desvios do comportamento considerado adequado à função feminina. As mulheres eram internadas como “histéricas”, termo que tem origem no latim uterus, que significa “ventre” ou “útero”. Neste contexto de pré-ciência, acreditavam que o órgão feminino se deslocava dentro da mulher e por isso ficava histérica, associando loucura ao útero e reforçando estigmas (Waiselfisz, 2015). A Reforma Psiquiátrica, nos anos 1970, trouxe avanços como desinstitucionalização e direitos humanos, mas o preconceito persiste. A saúde mental é atravessada por pobreza, racismo, machismo, homofobia e sobrecarga de trabalho (FBSP, 2024). Mulheres, submetidas a jornadas múltiplas e padrões sociais opressivos, vivenciam sofrimento que não é apenas individual, mas coletivo.A partir do século XX, especialmente com os avanços da psiquiatria, da psicologia e das lutas feministas, a ansiedade passa a ser reconhecida como um transtorno mental legítimo, mas ainda atravessado por desigualdades de gênero. Estudos contemporâneos mostram que mulheres apresentam maiores índices de ansiedade não por predisposição biológica simples, mas por fatores sociais históricos: dupla e tripla jornada de trabalho, responsabilização quase exclusiva pelo cuidado, violência doméstica e sexual, desigualdade econômica e pressão constante por desempenho emocional e estético. Assim, a história da ansiedade nas mulheres revela menos uma fragilidade individual e mais um retrato persistente das condições sociais que produzem sofrimento psíquico — ontem silenciado, hoje mais nomeado, mas ainda longe de ser plenamente enfrentado.A ansiedade caracteriza o século XXI como uma das formas mais marcantes do sofrimento humano. Embora presente na história da humanidade, sua interpretação varia conforme tempo e cultura. 

Shawn Achor (2012) descreve a sociedade atual como baseada na comparação constante. Daniel Kahneman (2012) demonstra que a mente ansiosa opera de modo rápido, intuitivo e impulsivo, favorecendo a preocupação contínua. Augusto Cury (2013) denomina esse fenômeno de “síndrome do pensamento acelerado”, resultado da vida contemporânea. A ansiedade não nasce do nada: ela é histórica, social e criada por ritmos de vida impossíveis. 

Por outro lado, em Ecce Homo (2008), Nietzsche afirma: “Minha fórmula para a grandeza no ser humano é amor fati: não querer nada diferente, nem no passado nem no futuro, nem por toda a eternidade.” No passado pode estar a depressão e no futuro que sequer existe, a ansiedade. 

  1. Corpo, trauma e ansiedade

Vivemos na era da comparação infinita. Como diz Achor (2012), estamos sempre atrasados(as), insuficientes, em corrida permanente. Isso adoece. 

Kahneman (2012) explica: quando o cérebro funciona só no modo rápido, ele engana, reage com medo, impulsos e catastrofização. Ansiedade é o corpo tentando sobreviver. Kolk (2017) mostra que o corpo guarda as marcas: traumas (re)organizam o cérebro, hormônios e defesa do organismo que aumentam respostas intensas de alerta e alimentam a ansiedade.Não é fraqueza: é neurociência.Hanh (1995) e Tolle (2000) propõem a presença e a atenção plena como caminhos para romper ciclos de sofrimento. Chödrön (2017) enfatiza o acolhimento da vulnerabilidade.

  1. Ansiedade nelas e neles

Muitas mulheres carregam sobrecarga mental, múltiplas jornadas, riscos de violência doméstica, expectativas sociais de perfeição e sentem culpa ao não atendê-las. Isso contribui para índices mais altos de ansiedade. O corpo não aguenta tudo.

Homens, por outro lado, são socializados a reprimir emoções, produzindo silêncio emocional e sofrimento invisível por serem ensinados a se calar. A cultura do “forte não sente” adoece e o preço é alto.

Manson critica a cultura da força e perfeição que adoece ambos os gêneros.

  1. Presença, alívio, hábito e transformação 

Achor, Cury e Pittman & Karle apontam técnicas práticas de reorganização mental e neuroquímica. Kahneman e Tolle apontam a necessidade de desacelerar, reconhecer padrões mentais e cultivar presença. Voltar ao presente é voltar a respirar. A cura começa quando a mente desacelera. Atenção plena reduz o turbilhão emocional  (Hanh; Tolle). Aceitar o desconforto é necessário. Pema Chödrön ensina: fugir da dor aumenta o sofrimento. Acolher a vulnerabilidade abre espaço para a paz.  

Pittman & Karle (2015) mostram que o cérebro ansioso pode ser reeducado com hábitos simples, rotinas e compreensão. Cury chama a ansiedade de “síndrome do pensamento acelerado”. Aprender a pausar é urgente. Mudanças pequenas criam impactos profundos no bem-estar (Achor; Cury). Mark Manson (2017) lembra: não dá para controlar tudo. Às vezes, a saúde mental começa quando soltamos o que não é nosso.

  1. Torna-te quem tú és: o sofrimento como condição de potência                                                                 Nietzsche (2011) considera que a vida é essencialmente conflito, mudança, tensão. Nada grande nasce do conforto. “É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”, diz Nietzsche, sugerindo que conflitos, desordem e desafios (o caos) são importantes ao crescimento, a transformação e o surgimento de algo novo e brilhante (as estrelas), refletindo uma beleza e força que surgem da adversidade, semelhante ao processo de formação estelar no universo, que começa em nebulosas. Por isso, não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas. 

Em A Gaia Ciência (2001), ele afirma que “tudo o que é bom é fruto do enfrentamento”, pois é no atrito com o difícil que desenvolvemos força, estilo, caráter e profundidade. Para ele, não existe florescimento humano sem atravessar dor, perdas e desordem. O sofrimento é matéria-prima da criação. Fugir do sofrimento, segundo o filósofo, é empobrecer a vida. 

Nietzsche critica aquilo que chama de “moral dos fracos”, típica das tradições ascéticas e do moralismo europeu que tenta eliminar o sofrimento por meio de: fé consoladora, obediência, anestesia psicológica, idealização de “um mundo melhor” no além. Essas formas de fuga não libertam; atrofiam. Tornam o indivíduo incapaz de lidar com a vida real, com suas contradições e imprevisibilidades. 

Ele diz, em Crepúsculo dos Ídolos (2006): “A dor não é um argumento contra a vida.” Ou seja, sofrer não prova que a vida é má; muitas vezes prova que estamos vivendo intensamente. Criar sentido a partir do sofrimento: o “sim à vida”. Nietzsche não exalta o sofrimento em si, mas a capacidade de transformá-lo. Seu critério ético central é: o que aumenta sua potência de existir?

O sofrimento só vale quando conduz à expansão da força, à criação de novos caminhos. Por isso, ele diz que o humano mais forte é aquele capaz de dizer um “sim” à vida inclusive no caos, não apesar dele.

Amor fati para Nietzsche, no Ecce Homo (2008) é amar o real como ele é — inclusive o doloroso — porque é ali que se encontra a possibilidade de criação. O herói nietzschiano enfrenta o sofrimento como quem enfrenta um desafio. O indivíduo que Nietzsche admira não é quem evita a dor, mas quem a suporta e a integra: enfrenta a queda e se ergue mais forte, atravessa o medo e descobre coragem,experimenta o fracasso e encontra novas formas de existir.                                                                                                                                                         

Por isso, ele afirma no Zaratustra (2011) que “é preciso ter caos dentro de si para parir uma estrela dançante”. O caos não deve ser negado — deve ser transformado. A vida mais elevada é aquela que suporta mais. No pensamento nietzschiano, vitalidade e capacidade de sofrer estão relacionadas. Quem é forte suporta muito; quem é fraco, pouco.

Pode haver luz no caminho

Inspirados pelo Mito de Sísifo, que empurra eternamente sua pedra (Camus, 1942), vemos uma metáfora da luta diária das mulheres diante de macro e micro opressões, escancaradas ou sutis. Reconhecer o absurdo, buscar apoio e agir coletivamente transforma a pedra em resistência. E apesar da pedra é possível ver sentido, significado na existência. De algum modo, estamos condenadas a sermos livres e a fazermos escolhas, não sem condicionamentos.

Como sugere Fernando Pessoa em Eros e Psique (1915), o sofrimento, como a lagarta em metamorfose, pode se tornar Psiquê, a alma alada, capaz de romper amarras e voar livre. Que possamos imaginar uma sociedade em que nenhuma mulher precise carregar sua pedra sozinha.

O sofrimento, para ele, se torna: termômetro da força, prova de maturidade, motor da criação, matéria para se auto superar. Nesse sentido, para o filósofo, o sofrimento não é um obstáculo, mas uma porta de passagem para tornar-se quem se é.

A ansiedade é multifacetada: histórica, cultural, corporal, emocional e social. Sua expressão é marcada pelo gênero e pelas desigualdades estruturais. Compreender tais camadas é fundamental para construir práticas individuais e coletivas de autocuidado.

Encarar os sofrimentos, cuidar da saúde mental da mente é ato político, social e de gênero. Quem nunca sentiu episódios de ansiedade, não é mesmo? Eu já, claro. Então, respira, inspira, não pira!

Atualmente, alguns planos de saúde contemplam terapia, oportunidade de autoconhecimento e autocuidado para lidar com as próprias questões e complexidades da vida. Procure no SUS a RAPS/Rede de Atenção Psicossocial da sua cidade, onde se encontram os CAPS/Centros de Atenção Psicossocial ou ligue para o Centro de Valorização da Vida pelo 188. Tá aí um tema que precisamos meter a colher!

2 thoughts on “Ansiedade nas mulheres: sofrimento do nosso tempo

    • Cláudia Guerra says:

      Douglas, aqui emocionada com a estreia e oportunidade! Como sabe, gosto muito de estudar, pesquisar, compartilhar e trocar saberes! Mas, especialmente, aprecio ouvir os incômodos das mulheres, na sua diversidade, e amplificar suas vozes e, por meio da Revista Soberana, essas vozes serão reverberadas e chegarão longe! Abraço carinhoso, cheio de entusiasmo! 💜🥄

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