Pesquisa mostra que metade dos brasileiros gastou mais do que planejava no primeiro semestre de 2026; uso recorrente do crédito pode agravar desequilíbrio financeiro

O Brasil chegou a julho de 2026 com 83,9 milhões de pessoas inadimplentes e 348,3 milhões de dívidas em aberto, que somavam R$ 586,4 bilhões. Os dados são do Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa. No mesmo período, uma pesquisa da instituição em parceria com o Instituto Opinion Box revelou que 50% dos brasileiros gastaram mais do que planejavam nos primeiros seis meses do ano.
O descompasso entre renda e despesas pode resultar de diferentes fatores, como aumento do custo de vida, imprevistos e compras não planejadas. Mas também pode estar relacionado à dificuldade de acompanhar gastos que, isoladamente, parecem pequenos e acabam comprometendo o orçamento ao longo do mês.
Segundo Thiago Rodrigues, especialista da área de Negócios da Sicoob Coopmil, ultrapassar o limite previsto não significa necessariamente falta de organização. Despesas médicas, reparos na residência ou redução temporária da renda podem afetar até famílias que mantêm algum controle financeiro. O sinal de alerta aparece quando essas situações passam a ser resolvidas continuamente com novas dívidas.
“A inadimplência normalmente não acontece de forma repentina. Em muitos casos, existe uma sequência de decisões financeiras que vai reduzindo gradualmente a capacidade de pagamento”, explica o especialista da cooperativa.
CRÉDITO PARA COBRIR DESPESAS
Entre os primeiros sinais de desequilíbrio estão o pagamento apenas do valor mínimo da fatura do cartão, o parcelamento frequente de compras essenciais e a contratação de empréstimos para quitar compromissos anteriores.
O uso do crédito, porém, não é necessariamente um problema. Ele pode viabilizar a compra de um imóvel, um veículo ou outro projeto planejado, desde que o custo da operação seja compatível com a renda. A situação muda quando empréstimos e limites bancários passam a complementar o orçamento doméstico.
“O sinal de alerta aparece quando o crédito passa a ser utilizado para complementar a renda ou pagar despesas recorrentes, como gastos fixos (moradia, alimentação, transporte e outros)”, afirma Rodrigues.
Antes de assumir uma nova prestação, o consumidor deve considerar a renda líquida, os compromissos existentes e as despesas que não aparecem todos os meses, como impostos, seguros e material escolar. Também é necessário avaliar o custo total do financiamento, e não apenas o valor das parcelas.
COMO REORGANIZAR AS CONTAS
Para quem percebe que está gastando mais do que recebe, a orientação é começar por um levantamento das receitas, despesas e dívidas. O diagnóstico permite identificar gastos que podem ser reduzidos sem comprometer necessidades essenciais, como alimentação, moradia e saúde.
“Uma boa prática é transformar essas despesas previsíveis em uma provisão mensal. Dessa forma, o consumidor evita que um gasto conhecido seja tratado como uma emergência”, orienta o especialista, referindo-se a compromissos sazonais que costumam ficar fora do planejamento.
Se já existem contas em atraso, a renegociação pode ser uma alternativa, desde que as novas condições caibam no orçamento. Assumir parcelas incompatíveis com a renda tende a prolongar o problema.
A organização também não exige ferramentas complexas. Registrar os gastos diariamente, revisar as despesas ao menos uma vez por semana e reservar parte da renda para imprevistos são medidas que ajudam a identificar dificuldades antes que elas se transformem em inadimplência.
Ainda para Rodrigues, o objetivo não deve ser apenas quitar os débitos existentes, mas evitar que o crédito continue sendo necessário para pagar despesas básicas. A recuperação do equilíbrio financeiro depende de um planejamento que possa ser mantido nos meses seguintes.

