Há momentos em que a vida parece uma montanha. Não porque sejamos fracos, mas porque há pedras que não escolhemos carregar.
Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio e saúde mental. Mais do que repetir a importância do diálogo, porém, precisamos perguntar: o que faz a vida pesar tanto para algumas pessoas? Por que determinadas dores atingem certos grupos com mais frequência? E como as expectativas sociais influenciam a maneira como homens e mulheres adoecem, pedem ajuda e enfrentam o sofrimento?
Essas perguntas aproximam filosofia, sociologia e política. Preservar vidas não significa apenas convencer alguém a continuar vivo. Significa também construir uma sociedade menos solitária, violenta e desigual.
A pedra de Sísifo
Em O Mito de Sísifo, Albert Camus parte de uma provocação radical: antes de qualquer outra questão, precisamos perguntar se a vida vale a pena ser vivida.
Na mitologia grega, Sísifo é condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima. Quando se aproxima do topo, ela despenca, e ele precisa recomeçar.
A imagem nos é familiar:
Acordar. Trabalhar. Cuidar. Resolver problemas. Pagar contas. Criar filhos. Enfrentar violências. Ser cobrada. Recomeçar.
Mas há uma diferença fundamental entre Sísifo e muitas pessoas hoje: nossa pedra não é apenas existencial. Muitas vezes, ela é socialmente produzida.
É a mulher submetida à dupla ou tripla jornada; a jovem exposta à violência sexual, ao bullying e à pressão estética; a pessoa que vive violência doméstica; o homem educado para não demonstrar fragilidade, não chorar e não pedir ajuda.
São experiências distintas, mas todas podem se tornar pesadas demais.
Camus não propõe que Sísifo abandone a montanha. Sua resposta ao absurdo é a revolta: reconhecer a própria condição e, ainda assim, afirmar a vida.
É nesse ponto que Camus encontra o Setembro Amarelo: prevenir o suicídio também é ajudar as pessoas a perceberem que não precisam enfrentar o sofrimento sozinhas.
Os números também têm gênero
Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. O suicídio é a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. A OMS ressalta que não há uma causa única: fatores psicológicos, sociais, culturais, econômicos e ambientais podem se combinar. Violência, abuso, isolamento, discriminação, conflitos e dificuldades econômicas estão entre os fatores associados. (Organização Mundial da Saúde)
No Brasil, o Mapa da Segurança Pública 2024, com dados de 2023, registrou 16.406 mortes por suicídio, o maior número da série apresentada no levantamento. Foram 11.302 mortes em 2020, 14.648 em 2021 e 15.730 em 2022. (Scribd)
O total, porém, esconde diferenças importantes.
Historicamente, os homens apresentam taxas de mortalidade por suicídio superiores às das mulheres. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2019, a taxa foi de 10,7 por 100 mil entre homens e 2,9 por 100 mil entre mulheres — uma diferença de aproximadamente 3,8 vezes. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso não significa que as mulheres estejam menos expostas ao sofrimento psíquico. O mesmo boletim mostrou que elas representavam 71,3% das notificações de lesões autoprovocadas, embora os homens apresentassem maior mortalidade. (Serviços e Informações do Brasil)
Esse contraste, conhecido como “paradoxo de gênero” do comportamento suicida, indica que homens e mulheres podem sofrer, pedir ajuda e chegar a desfechos diferentes. Não se trata de comparar dores, mas de reconhecer suas manifestações para que a prevenção seja mais precisa.
Meninas estão dizendo que alguma coisa está errada
A adolescência revela uma das dimensões mais preocupantes desse cenário.
A quinta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE em março de 2026, mostrou que, entre estudantes de 13 a 17 anos, 25% das meninas disseram ter sentido que a vida não valia a pena ser vivida na maioria das vezes ou sempre nos 30 dias anteriores à pesquisa, contra 12% dos meninos. (IBGE)
O dado não constitui, isoladamente, diagnóstico de comportamento suicida. Mas revela sofrimento intenso e uma desigualdade de gênero que não pode ser ignorada.
Quando uma adolescente diz que não vê valor na própria vida, não devemos perguntar apenas o que há de errado com ela. Precisamos perguntar também: que sociedade estamos oferecendo a ela?
Uma sociedade que cobra um padrão estético quase impossível, sexualiza precocemente seus corpos, naturaliza a violência contra mulheres e exige, ao mesmo tempo, desempenho escolar, beleza, produtividade, popularidade e adequação. Uma sociedade em que as redes sociais funcionam como vitrines permanentes de comparação.
A PeNSE 2024 também mostrou que meninas são as principais vítimas de violência sexual entre estudantes. O IBGE registrou que 18,5% dos escolares de 13 a 17 anos relataram ter passado por alguma situação de toque, manipulação, beijo ou exposição corporal contra a vontade. (IBGE)
Esses dados não autorizam estabelecer uma relação causal simples entre violência e suicídio. Eles mostram, contudo, que violência, discriminação, insegurança, isolamento e sofrimento psíquico precisam ser enfrentados de forma integrada. A OMS também reconhece esses fatores entre os elementos associados ao comportamento suicida. (Organização Mundial da Saúde)
E os homens?
Um recorte de gênero também precisa considerar os homens.
A masculinidade tradicional ensina muitos meninos que homem não chora, aguenta tudo e resolve sozinho. Quando a dor aparece, alguns não têm sequer vocabulário emocional para nomeá-la.
O sofrimento pode se transformar em silêncio, isolamento, agressividade, abuso de álcool ou outros comportamentos de risco. Se os homens morrem mais por suicídio, isso também revela a urgência de discutir como os educamos para lidar com a vulnerabilidade.
Prevenção não pode significar apenas ensinar mulheres e meninas a pedir ajuda. Precisamos ensinar aos meninos que pedir ajuda não diminui um homem. Pode salvá-lo.
A mulher que carrega o mundo
Outra dimensão central é a economia do cuidado.
As mulheres ainda são socializadas para cuidar dos filhos, dos pais, dos companheiros, da casa e de todos ao redor, enquanto seu próprio sofrimento fica no fim da fila. Essa responsabilidade se soma à violência doméstica, à pobreza, ao assédio, à discriminação e à falta de apoio.
Ela pode estar exausta e ouvir: “Você precisa ser forte.”
Pode sofrer violência e ouvir: “Pense nos filhos.”
Pode estar deprimida e ouvir: “Você tem tudo para ser feliz.”
Pode chegar ao limite e continuar preparando o jantar.
Falar de saúde mental com recorte de gênero exige reconhecer que as pessoas vivem dentro de estruturas sociais. A prevenção não pode tratar como problema individual uma dor produzida ou agravada por relações desiguais.
Da filosofia à política pública
A leitura de Camus ganha dimensão política quando perguntamos: e se aquilo que nos esmaga não for apenas o absurdo da existência, mas uma estrutura social que pode ser transformada?
Nesse caso, a resposta precisa ultrapassar o plano individual.
Não basta dizer à mulher violentada que seja forte: é preciso garantir proteção. Não basta pedir ao adolescente que converse: é preciso oferecer escuta qualificada e profissionais preparados. Não basta recomendar ao trabalhador que cuide da saúde mental: é preciso enfrentar assédio, precarização, excesso de jornada e ambientes adoecedores. Não basta dizer ao homem que procure ajuda: é preciso desconstruir uma masculinidade que transforma vulnerabilidade em vergonha.
A prevenção do suicídio é, portanto, uma questão de direitos humanos, saúde pública, educação e justiça social.
A OMS recomenda uma abordagem multissetorial, envolvendo saúde, educação, trabalho, justiça, políticas públicas e comunidade. Entre as estratégias baseadas em evidências estão a identificação precoce e o acompanhamento de pessoas em risco, o fortalecimento das habilidades socioemocionais de adolescentes, a comunicação responsável pela mídia e a redução do acesso a meios altamente letais. (Organização Mundial da Saúde)
A política pública que não chega
Falar em prevenção sem discutir a capacidade de atendimento do Estado produz um discurso incompleto.
O Brasil possui uma rede pública de saúde mental construída pelo SUS, mas sua oferta ainda é desigual e insuficiente. A Atenção Primária, nas Unidades Básicas de Saúde, deveria garantir escuta, avaliação inicial, acompanhamento e encaminhamento. Em situações de maior gravidade, os Centros de Atenção Psicossocial — CAPS — deveriam oferecer cuidado territorial e contínuo.
Na prática, a rede varia entre municípios. Há serviços sobrecarregados, filas, horários restritos e interrupções no acompanhamento. A escassez e a concentração de psiquiatras nas capitais, nas regiões mais ricas e no setor privado ampliam as barreiras de acesso. O problema envolve também a precariedade das equipes e a falta de integração entre saúde, assistência social, educação e justiça.
Em muitos territórios, a pessoa chega ao serviço apenas quando a crise já se instalou. A prevenção, que deveria envolver acompanhamento regular e identificação precoce, é substituída por respostas emergenciais. O Estado aparece tarde — às vezes, depois de uma tentativa, uma internação ou uma morte.
Também é insuficiente reduzir a resposta à ampliação da prescrição de medicamentos. Psiquiatras são indispensáveis em muitos casos, mas saúde mental não se resume à consulta médica. É preciso garantir equipes multiprofissionais, atendimento para uso problemático de álcool e outras drogas, leitos de saúde mental em hospitais gerais quando indicados e políticas de moradia, renda, proteção contra a violência e inclusão social.
Quando a rede falha, as famílias assumem responsabilidades que deveriam ser compartilhadas. Mães, companheiras e cuidadoras passam a vigiar, acompanhar consultas, administrar medicamentos e conter crises sem orientação ou apoio. Essa privatização do cuidado aprofunda a desigualdade de gênero e transforma o sofrimento de uma pessoa em exaustão de toda a família.
Por isso, a pergunta não pode ser apenas “onde essa pessoa pode buscar ajuda?”. Precisamos perguntar: por que ela precisou esperar tanto? Por que o serviço não estava disponível? Por que o cuidado depende do CEP, da renda ou da possibilidade de pagar uma consulta particular?
Prevenir o suicídio exige orçamento, planejamento, profissionais valorizados, formação permanente, dados confiáveis e uma rede capaz de acompanhar as pessoas antes, durante e depois da crise. Campanhas são importantes, mas não substituem políticas de Estado.
Não precisamos romantizar Sísifo
Não devemos transformar a resistência em obrigação de ser forte.
Camus escreveu em um contexto filosófico específico, e sua reflexão não substitui atendimento em saúde mental nem políticas públicas. A ideia de imaginar Sísifo feliz não deve ser usada para dizer às pessoas que encontrem felicidade dentro do sofrimento. Ela pode, porém, provocar uma reflexão sobre liberdade, consciência e resistência.
Ninguém deveria enfrentar sozinho uma dor que poderia ser compartilhada e cuidada.
Talvez a maior diferença entre Sísifo e nós seja esta:
podemos ajudar uns aos outros.
Podemos perceber, escutar, acolher, procurar ajuda, combater a violência e dividir o cuidado.
Setembro Amarelo não pode terminar em setembro
O Setembro Amarelo é importante porque rompe o silêncio, mas a prevenção não pode durar apenas trinta dias.
A saúde mental precisa estar presente na escola, no trabalho, na família, no SUS, nas universidades, nas políticas para mulheres e jovens, na proteção social e nas comunidades.
Precisamos de uma cultura em que perguntar “Você está bem?” não seja mera formalidade — e em que alguém possa responder “Não” sem medo de julgamento.
Talvez essa seja a verdadeira revolta de que Camus nos fala: não contra a vida, mas contra tudo aquilo que a transforma em um lugar impossível de habitar.
A pedra continua pesada, mas não precisamos assistir de longe. Podemos construir relações e instituições capazes de oferecer apoio antes que a crise se agrave.
Preservar a vida não é apenas impedir a morte. É criar condições para que viver possa voltar a fazer sentido.
Se precisar de ajuda, peça ajuda
Se você ou alguém próximo estiver enfrentando sofrimento intenso, pensamentos de morte ou vontade de se machucar, não espere a situação piorar. Fale com alguém de confiança e procure uma unidade de saúde, uma Unidade Básica de Saúde, um CAPS ou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A UBS pode fazer a avaliação inicial e orientar o encaminhamento; o CAPS pode acompanhar situações de sofrimento psíquico intenso e crises, conforme a organização da rede do município.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e voluntário pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também é possível buscar atendimento pelo site cvv.org.br e pelo chat, conforme a disponibilidade do serviço. O CVV não substitui atendimento médico ou psicológico, mas pode oferecer escuta em momentos de angústia.
Em uma situação de risco imediato, não deixe a pessoa sozinha. Afaste, se possível, meios que possam ser utilizados para causar ferimentos, chame o SAMU pelo 192, procure uma UPA ou vá diretamente a um pronto-socorro. Em situações de emergência e perigo imediato, também é possível acionar a Polícia Militar pelo 190. Se houver violência contra uma mulher, o Ligue 180 oferece orientação e encaminhamento; em emergência, o número é 190.
Para localizar serviços do SUS, procure a Secretaria Municipal de Saúde, a UBS de referência ou a unidade de pronto atendimento mais próxima. A Ouvidoria do SUS pode ser acessada pelo telefone 136 para informações, orientações e manifestações sobre os serviços públicos de saúde.
Perguntar diretamente se alguém está pensando em morrer ou se machucar não “coloca a ideia na cabeça”. Pode abrir uma oportunidade de cuidado. Escute sem julgamento, leve a fala a sério e ajude a pessoa a chegar a um serviço de saúde.
O Ministério da Saúde reforça que o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial e que pode ser prevenido. (Serviços e Informações do Brasil)
Escutar também é cuidar.
Acolher também é prevenir.
E cuidar da vida é responsabilidade de todos nós.
Fontes principais: Organização Mundial da Saúde (OMS), Ministério da Saúde, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/PeNSE 2024), Ministério da Justiça e Segurança Pública/Mapa da Segurança Pública 2024 e estudos acadêmicos sobre a filosofia de Albert Camus.

