Cláudia Guerra e Mônica Lima
A sexualidade humana sempre foi atravessada pela cultura, pela política, pela religião, pela economia e pelas tecnologias disponíveis em cada época histórica. Se o século XX transformou profundamente as formas de amar, desejar e construir intimidade por meio da urbanização, da mídia de massa e da revolução sexual, o século XXI inaugura uma mudança ainda mais radical: a digitalização da experiência afetiva e sexual.
No meu trabalho cotidiano como psicóloga do sexo, tenho acompanhado com crescente atenção um fenômeno que ainda chega aos consultórios envolto em vergonha, silêncio e confusão: pessoas que se apaixonam por personagens produzidos por inteligência artificial, que preferem a pornografia em realidade virtual a qualquer encontro humano, ou que encontram mais segurança emocional em um robô do que em um relacionamento real. Esse conjunto de experiências tem recebido o nome de digissexualidade — e precisamos falar sobre ele com profundidade, seriedade e sem moralismos simplistas.
O termo começou a circular entre pesquisadores por volta de 2016 e 2017, justamente em um período de expansão acelerada da inteligência artificial, da realidade virtual e dos dispositivos imersivos. A literatura especializada costuma organizar a digissexualidade em duas grandes ondas. A primeira é aquela com a qual já convivemos há décadas: pornografia online, sexting, aplicativos de relacionamento, videochamadas íntimas. Nessa fase, a tecnologia atua como ponte entre pessoas reais — ela aproxima, facilita encontros, rompe barreiras geográficas e amplia possibilidades de interação.
A segunda onda, porém, representa uma transformação mais profunda e antropologicamente significativa: a tecnologia deixa de ser mediação e passa a ocupar o lugar do próprio vínculo afetivo e sexual. Robôs sexuais, companhias virtuais produzidas por IA, pornografia em realidade virtual e parceiros digitais personalizados já não funcionam apenas como instrumentos; tornam-se objeto central do desejo, da fantasia e da intimidade. Em muitos casos, o outro humano desaparece da equação.
Historicamente, não é a primeira vez que a sociedade teme mudanças nas formas de relacionamento. Quando o romance moderno surgiu no século XIX, houve quem afirmasse que os livros afastariam as mulheres da “vida real”. O cinema, o rádio, a televisão e depois a internet também foram acusados de destruir os vínculos sociais. Toda inovação tecnológica produz rearranjos na experiência humana. Contudo, a diferença contemporânea talvez esteja na intensidade da imersão e na capacidade inédita das tecnologias digitais de simular reciprocidade emocional.
A inteligência artificial aprende padrões afetivos, responde em tempo real, adapta-se aos desejos do usuário e oferece aquilo que muitos vínculos humanos não conseguem garantir: disponibilidade constante, ausência de rejeição, controle da interação e sensação de validação contínua. Em uma sociedade marcada pelo desempenho, pela pressa e pela fragilidade dos laços sociais, isso possui enorme apelo emocional.
É impossível compreender a digissexualidade sem olhar para o contexto social mais amplo. Vivemos uma era marcada por aquilo que muitos pesquisadores(as) já descrevem como uma epidemia de solidão. O avanço do individualismo, o enfraquecimento das comunidades, a precarização do trabalho, o excesso de jornadas, o medo da violência, a hiperconectividade paradoxal e os efeitos emocionais aprofundados pela pandemia transformaram profundamente as formas de convivência humana.
As novas gerações cresceram em ambientes cada vez mais mediados por telas. Muitos jovens aprenderam primeiro a interagir digitalmente para só depois desenvolver habilidades de convivência presencial. A própria lógica das redes sociais reorganizou a subjetividade contemporânea: relações rápidas, recompensas imediatas, exposição constante e vínculos muitas vezes descartáveis. Nesse cenário, a tecnologia afetiva surge não apenas como entretenimento, mas também como refúgio emocional.
Existe ainda uma dimensão política e econômica pouco debatida. O capitalismo digital não vende apenas produtos: vende experiências afetivas, atenção, pertencimento e prazer. Plataformas, aplicativos e sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos para prolongar o tempo de uso e estimular dependência emocional e comportamental. O desejo humano tornou-se mercado altamente lucrativo. A indústria pornográfica, os aplicativos de relacionamento e os sistemas de companhia virtual movimentam bilhões justamente porque exploram necessidades profundamente humanas: afeto, reconhecimento, desejo e conexão.
Também é necessário reconhecer que gênero, desigualdade e violência atravessam esse debate. Muitos homens socializados em culturas machistas e autoritárias apresentam dificuldades crescentes de lidar com reciprocidade, frustração e negociação emocional nas relações humanas. Em alguns casos, as tecnologias afetivo-sexuais aparecem como espaços de controle absoluto, onde não há conflito, rejeição ou autonomia do outro. Isso revela não apenas mudanças tecnológicas, mas também crises nas masculinidades contemporâneas e dificuldades coletivas de construção de vínculos mais igualitários.
Ao mesmo tempo, há pessoas com deficiência, indivíduos neurodivergentes, pessoas idosas ou sujeitos profundamente marcados por traumas e exclusões sociais que encontram nesses ambientes digitais possibilidades reais de experimentação afetiva, segurança emocional e expressão da sexualidade. Por isso, qualquer análise séria sobre digissexualidade exige cuidado para não cair em condenações simplistas ou pânicos morais.
É importante dizer com clareza: a digissexualidade não é um transtorno. Não existe diagnóstico médico específico para ela. Patologizar automaticamente essas experiências seria um erro ético e científico. A função de profissionais de saúde sexual não é julgar, mas compreender o contexto, os sentidos subjetivos e os impactos dessas práticas na vida concreta das pessoas.
O problema não está na tecnologia em si. Está no desequilíbrio, no isolamento extremo e na substituição progressiva da experiência humana compartilhada. Em mais de uma década atendendo questões relacionadas à sexualidade no Grupo Cresex, aprendi que o sofrimento costuma aparecer quando a sexualidade mediada pela tecnologia se transforma no único espaço possível de vínculo, prazer e intimidade. Nesse ponto, observamos sinais clínicos importantes: perda de controle sobre o comportamento, afastamento social, prejuízos afetivos e profissionais, dificuldade crescente de convivência presencial e sofrimento emocional significativo.
Do ponto de vista antropológico, a sexualidade humana nunca foi apenas ato físico ou descarga de tensão. Ela é também ritual, linguagem, construção simbólica, toque, cheiro, presença, imprevisibilidade e vulnerabilidade compartilhada. O encontro humano é marcado justamente pela alteridade — pela existência de um outro que possui desejos, limites, diferenças e autonomia. Quando a experiência afetiva é substituída por sistemas desenhados para atender continuamente às expectativas individuais, algo fundamental da experiência humana corre o risco de se perder.
Isso não significa defender uma oposição simplista entre “real” e “virtual”. A vida contemporânea já é híbrida. O digital faz parte das nossas relações, do trabalho, da política e dos afetos. A questão central talvez seja outra: que tipo de humanidade estamos construindo quando terceirizamos progressivamente nossas necessidades emocionais para algoritmos e simulações?
A minha posição, tanto clínica quanto como fundadora do Cresex, não é a de “demonizar” essas práticas. Nunca foi. É a de criar espaço para reflexão crítica, escuta qualificada e consciência emocional. Precisamos ajudar as pessoas a perguntarem, sem culpa, medo e sem vergonha: a tecnologia está ampliando minha vida afetiva ou substituindo meus vínculos? Está favorecendo encontros humanos ou aprofundando meu isolamento? Está servindo ao meu bem-estar emocional ou se tornando fuga permanente das dificuldades do convívio humano?
A digissexualidade chegou para ficar. E talvez ela revele menos sobre máquinas e mais sobre nós mesmos: sobre nossas carências, medos, solidões, formas de organização social e dificuldades contemporâneas de construir intimidade em um mundo acelerado, desigual e profundamente mediado pela tecnologia.
A pergunta mais importante não é se essas experiências são “certas” ou “erradas”. A pergunta fundamental é: que tipo de sociedade estamos criando quando o contato humano se torna cada vez mais opcional?
Essa é uma conversa urgente — nos consultórios, nas escolas, nas universidades, nas famílias e na sociedade como um todo.
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Mônica Lima é psicóloga do sexo e Diretora Fundadora e Executiva do Grupo Cresex Uberlândia, CRP: 04/00714. Co-autoria com a colunista Cláudia Guerra historiadora e membro honorária do Cresex/Centro de Referência em Sexualidade.

