Mari Simões: uma década de música, propósito e transformação de vidas

Na cena cultural de Uberlândia, há trajetórias que não se medem apenas por aplausos, mas pelo alcance silencioso e profundo que têm na vida de outras pessoas. É nesse território que se registra a história de Mariane Pinfildi Simões, ou simplesmente Mari Simões — cantora e gestora cultural, uma artista que faz da arte não apenas profissão, mas instrumento de transformação social e por isso deixa legado. Parabéns, Mari Simões!

Sua caminhada começa em 2016, de forma despretensiosa, quase como quem busca respiro em meio às turbulências da vida. Diante de desafios pessoais e profissionais, Mari encontrou na música um refúgio — e, pouco a pouco, um propósito. Nos bares, clubes e eventos da cidade, sua voz foi ganhando espaço, transitando pela bossa nova, samba e clássicos da música brasileira. Mas o que parecia um início tímido já carregava, em essência, algo maior: a capacidade de conectar histórias, afetos e resistências.

A arte celebra mulheres e fortalece redes

Ainda naquele mesmo ano, Mari deu vida a um projeto que sintetiza uma de suas maiores missões: o espetáculo “Elas da Música Brasileira”. Mais do que um show, trata-se de um verdadeiro manifesto artístico que resgata e valoriza a trajetória de mulheres na música brasileira — desde os primeiros registros no século XIX até os dias atuais.

Ao longo de quatro edições, o espetáculo consolidou-se como um espaço de reconhecimento e visibilidade feminina. No palco, Mari não caminha sozinha: convida outras cantoras das cidades por onde passa, ampliando vozes e fortalecendo redes. Também, o projeto se expande em ações sociais que revelam o compromisso da artista com a realidade das mulheres:

  • Ingresso solidário, incentivando a doação de produtos de higiene feminina para instituições que atuam no enfrentamento à violência doméstica;
  • Arte no foyer, abrindo espaço para mulheres da dança, artes visuais e do artesanato;
  • Rodas de conversa, onde a própria Mari compartilha sua trajetória com outras mulheres e provoca reflexões sobre o poder transformador da arte.

Não por acaso, iniciativas como essa beneficiaram organizações como a SOS Mulheres, em Uberlândia, e a IMAD, em Uberaba — ampliando o impacto para além do palco. Em uma de suas edições mais marcantes, o espetáculo reuniu gerações ao convidar o Coral 60+ do SESC para interpretar “Romaria”, num encontro simbólico entre memória, afeto e cultura.

Solidariedade em tempos de crise

Se a arte já era caminho, foi durante a pandemia que ela se tornou urgência. Em 2020, diante do colapso vivido por trabalhadores da cultura, Mari idealizou o Festival In Casa, uma iniciativa virtual que uniu entretenimento e solidariedade.

Com o apoio de parceiros e patrocinadores, o projeto reuniu mais de 15 atrações musicais e mobilizou a cidade. O resultado foi concreto e profundamente humano: cerca de 100 músicos beneficiados com doações que iam de recursos financeiros a cestas básicas, atendimentos de saúde e cuidados pessoais.

O festival ultrapassou o improviso emergencial e ganhou continuidade, com novas edições viabilizadas por políticas públicas culturais, como a Lei Aldir Blanc. Mais uma vez, Mari demonstrava que arte também é organização, articulação e compromisso coletivo.

Como Mari afirma: “a música me abriu portas para um universo de infinitas possibilidades e a arte me leva por caminhos inimagináveis, repletos de alegrias”.

Ancestralidade, fé e cultura como resistência

Durante o mesmo período, outro movimento importante marcou sua trajetória. Sensibilizada com a situação do CIESL – Círculo de Irradiações Espirituais São Lázaro, espaço religioso ao qual pertence, Mari atuou para garantir sua sobrevivência.

Com articulação junto à Secretaria de Cultura, conseguiu o reconhecimento do local como espaço cultural, viabilizando acesso a recursos públicos. Como contrapartida, criou o Saravarte – Circuito Cultural São Lázaro, um projeto que celebra as culturas afro, indígena e cigana, reunindo arte, espiritualidade e identidade.

A iniciativa não apenas fortaleceu a casa, mas também projetou saberes ancestrais como patrimônio vivo, rendendo reconhecimento por destacar bens culturais imateriais alinhados ao IPHAN. O projeto seguiu crescendo, com novas edições aprovadas em programas de incentivo cultural.

Reconhecimento e novos caminhos

A relevância de sua atuação não passou despercebida. Mari Simões foi homenageada por instituições culturais e pelo poder público de Uberlândia, recebendo premiações tanto na área da música quanto do patrimônio cultural, incluindo editais ligados às leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo.

Mas sua trajetória não se acomoda no reconhecimento — ela se reinventa.

Em 2025, Mari lança novos projetos que aprofundam ainda mais sua conexão com o coletivo e com as raízes culturais:

  • Arte Sagrada – Conecte-se, uma imersão em práticas ancestrais voltadas ao bem-estar integral e à reconexão com a natureza;
  • Festival Trem das Minas, que destaca o protagonismo feminino na cultura mineira, reunindo artistas, artesãs e empreendedoras em um movimento de valorização das tradições.

Tive a honra de recitar um poema no Festival Trem das Minas e me encantei com o nível de participação da comunidade em Cruzeiro dos Peixotos, distrito de Uberlândia.

Inspiração com potencial multiplicador

A trajetória de Mari Simões não é apenas sobre música. É sobre coragem de recomeçar, sobre transformar dor em potência e sobre compreender que talento, quando compartilhado, se torna ferramenta de mudança social.

Sua história revela algo essencial: mulheres que encontram sua voz não apenas se expressam — elas abrem caminhos. E, ao fazer isso, convidam outras a também se reconhecerem como protagonistas de suas próprias narrativas.

Entre palcos, projetos sociais e ancestralidade, a arte vira cura e resistência em tantas outras vidas.

Mari canta, sim! Mas, sobretudo, ela encanta e constrói pontes. E é nelas que tantas outras pessoas, principalmente as mulheres, aprendem a atravessar.

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