
Um estudo recente publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas acendeu um alerta importante sobre a relação entre genética e câncer no Brasil. A pesquisa identificou que 1 em cada 10 pacientes analisados carregava mutações hereditárias capazes de aumentar significativamente o risco para diferentes tipos de câncer.
O trabalho sequenciou o genoma completo de 275 pacientes com câncer de mama, próstata ou intestino atendidos em hospitais públicos das cinco regiões do país. A pesquisa faz parte do projeto Mapa Genoma Brasil, iniciativa coordenada pelo Hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo em parceria com o Ministério da Saúde.
Além do impacto nos próprios pacientes, o estudo trouxe outro dado considerado relevante pelos especialistas: quase 40% dos familiares que aceitaram realizar os testes também apresentaram as mesmas mutações genéticas, mesmo sem terem desenvolvido câncer até o momento.
De acordo com o Pós PhD em neurociências e especialista em genômica, Dr. Fabiano de Abreu Agrela, esse tipo de descoberta reforça a importância da medicina preventiva baseada em genética.
“Entender as nossas predisposições genéticas ajuda a tomar medidas preventivas muito importantes para evitar a manifestação plena destas predisposições. A genética não representa uma sentença definitiva, mas sim uma ferramenta poderosa de antecipação e monitoramento”, explica.
O que são mutações hereditárias?
As mutações hereditárias são alterações no DNA que podem ser transmitidas de geração em geração. Algumas delas aumentam a probabilidade de desenvolvimento de doenças, incluindo diferentes tipos de câncer. Isso não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá a doença, mas indica um risco aumentado em comparação à população geral.
“Quando identificamos uma predisposição antes do surgimento clínico da doença, conseguimos agir de forma muito mais estratégica, com acompanhamento, exames específicos e mudanças de estilo de vida”, destaca o Dr. Fabiano de Abreu Agrela, membro do CPAH – Centro de Pesquisa e Análises Heráclito.
Entre os genes mais conhecidos ligados ao câncer estão alterações relacionadas aos genes BRCA1 e BRCA2, frequentemente associados ao câncer de mama e ovário, embora outras mutações também tenham relevância importante.
Diagnóstico precoce muda o cenário
Um dos maiores avanços da genômica moderna é justamente permitir que riscos sejam identificados antes do aparecimento dos sintomas. Isso possibilita protocolos de rastreamento mais personalizados e monitoramento contínuo para pessoas com maior predisposição genética. Além disso, os testes genéticos também ajudam familiares a entenderem melhor seus próprios riscos, ampliando estratégias de prevenção em toda a família.
“A medicina genômica permite sair de um modelo apenas reativo para uma abordagem preditiva. Em muitos dos casos, conseguimos identificar os riscos anos antes de qualquer manifestação clínica efetiva”, afirma.
Genética não age sozinha
Apesar dos fatores hereditários sejam importantes, especialistas reforçam que o desenvolvimento do câncer envolve múltiplos fatores, incluindo hábitos de vida, alimentação, exposição ambiental e níveis de inflamação do organismo.
“A predisposição genética interage com ambiente, comportamento e estilo de vida. Por isso, prevenção continua sendo multifatorial. Avanços na genômica devem tornar esse tipo de investigação cada vez mais presente na medicina personalizada nos próximos anos”, explica Dr. Fabiano de Abreu Agrela.
“O conhecimento genético tende a transformar profundamente a forma como entendemos prevenção, diagnóstico e até tratamentos individualizados”, finaliza o Dr. Fabiano de Abreu Agrela.

