
Trauma não é o que aconteceu, é o que ficou: Como experiências adversas moldam emoções, corpo e relações
Durante muito tempo, quando falávamos em trauma, a pergunta central era: “O que aconteceu com essa pessoa?” Hoje, depois de anos estudando, ensinando, atendendo famílias, formando cuidadores e escutando crianças, adolescentes e adultos, eu afirmo com convicção: trauma não é o que aconteceu , é o que ficou.
O que define o trauma não é, necessariamente, a gravidade objetiva do evento, mas a forma como o organismo emocional, relacional e corporal, conseguiu (ou não) processar aquela experiência. Duas crianças podem viver situações semelhantes e desenvolver impactos completamente diferentes. Isso acontece porque o trauma nasce no encontro entre o evento, a vulnerabilidade daquele momento do desenvolvimento e a presença, ou ausência, de adultos que ofereçam proteção, regulação e sentido.
Experiências adversas na infância como negligência, violência, abandono, institucionalização prolongada, perdas precoces, rupturas sucessivas de vínculos ou ambientes imprevisíveis, não ficam restritas ao campo da memória consciente. Elas se alojam no corpo, no sistema nervoso, nas emoções e na forma como a criança aprende a se relacionar com o mundo. Quando não há um adulto disponível para ajudar a criança a nomear o que sente, organizar o medo e dar contorno à dor, o corpo assume essa função. O sistema nervoso aprende a sobreviver. E sobreviver, muitas vezes, significa estar em alerta constante, desconfiar, antecipar rejeições, reagir antes de ser ferido. Por isso, comportamentos que costumam ser rotulados como “difíceis”, “opositores”, “desafiadores” ou “desobedientes” são, na verdade, estratégias de adaptação. São respostas coerentes a histórias marcadas por insegurança.
Emoções que não puderam ser sentidas viram comportamento. Uma das ideias centrais que atravessa meus estudos e palestras é esta: comportamento é linguagem. A criança que explode, se fecha, agride, foge, mente ou se desorganiza está comunicando algo que ainda não consegue dizer em palavras. Medo, vergonha, tristeza profunda, sensação de não pertencimento e terror de ser abandonado são emoções comuns em histórias de trauma. Quando essas emoções não encontram acolhimento, elas transbordam em forma de comportamento. Não por escolha, mas por necessidade.
A pergunta que transforma não é “O que há de errado com essa criança?”, e sim:
“O que aconteceu e o que continua acontecendo dentro dela?”
O corpo lembra do que a mente tenta esquecer.
O trauma também é corporal. Ele altera padrões de sono, alimentação, respiração, postura, tônus muscular e resposta ao estresse. Muitas crianças e adultos traumatizados vivem com o corpo em estado de ameaça, mesmo quando o perigo já passou. Isso explica dores recorrentes, hipersensibilidade, dificuldades de concentração, explosões emocionais aparentemente “desproporcionais” e uma constante sensação de exaustão. O corpo continua respondendo como se precisasse se defender. Tratar o trauma, portanto, não é apenas falar sobre o passado. É oferecer novas experiências de segurança no presente, que permitam ao corpo aprender que agora existe proteção, previsibilidade e cuidado.
Trauma afeta vínculos e também se cura neles. Talvez o impacto mais profundo do trauma esteja nas relações. Crianças que foram feridas por quem deveria protegê-las aprendem que o vínculo é perigoso. Elas desejam proximidade, mas a temem. Precisam de cuidado, mas testam, rejeitam ou sabotam quem se aproxima. Isso é especialmente visível em contextos de adoção, acolhimento familiar e reintegração. O adulto oferece amor e a criança responde com controle, rejeição ou agressividade. Não porque não queira vínculo, mas porque aprendeu que amar dói e que depender é arriscado. A boa notícia é que, assim como o trauma acontece nas relações, a reparação também acontece nelas. Relações consistentes, previsíveis, empáticas e reguladoras têm poder terapêutico. Não rápidas, não perfeitas, mas persistentes.
Não é sobre apagar o passado, é sobre construir sentido. Cuidar de crianças e adolescentes com histórias de trauma exige uma mudança profunda de paradigma. Não se trata de consertar comportamentos, mas de reconstruir segurança. Não é sobre disciplina punitiva, mas sobre correção conectiva. Não é sobre controle, mas sobre vínculo.
Quando um adulto se mantém emocionalmente disponível, mesmo diante da rejeição; quando oferece limites claros sem humilhar; quando ajuda a criança a nomear sentimentos e regula junto com ela, algo novo acontece: o trauma deixa de ser a única narrativa possível.
O passado não pode ser apagado. Mas o que ficou pode ser transformado e é isso que precisamos lembrar, todos os dias: crianças não precisam de adultos perfeitos.
Precisam de adultos suficientemente seguros para permanecer, mesmo quando o trauma tenta afastar.
